Airbus A319 da Latam decola do Santos Dumont com as luzes da pista totalmente apagadas

Na semana passada, a imprensa brasileira repercutiu um incidente grave, no qual um Embraer E195 da Azul pousou na pista auxiliar do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, por engano. No entanto, uma outra questão apareceu, que foi a decolagem de um Airbus A319 da Latam com a pista principal totalmente no escuro.

Como o equívoco do piloto da Azul teria sido gerado pelo fato de as luzes do balizamento noturno da pista principal terem sido apagadas não intencionalmente momentos antes do pouso, deixando os pilotos sem uma referência, a participação dos pilotos da Latam no caso pode ter sido decisiva, já que o esperado era que eles tivessem reportado à torre sobre o “apagão”.

O caso, amplamente divulgado, está agora sob investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (o CENIPA), órgão da Força Aérea Brasileira dedicado à segurança de voo, e um relatório deve ser disponibilizado em breve.

A carta ADC abaixo mostra como é o aeroporto Santos Dumont. Para colocar em contexto, o Azul pousou na pista 20R e deveria ter pousado na 20L, maior e mais larga. Abaixo, veja a análise do voo da Latam.

Vídeo mostra luzes se apagando

Toda a ação daquela noite de 5 de abril foi capturada pela câmera do canal Aviation TV, disponível abaixo. Nas imagens, é possível ver que o jato da Latam alinha e decola com a pista já totalmente apagada. Cruzando dados das plataformas de rastreamento de voos, identifica-se a aeronave como sendo o Airbus A319 de marcas PR-MBW, que fazia o voo LA-3933 para Congonhas.

Os fatos e horários são os seguintes:

1) Às 19h04, o avião da Latam está ingressando na área de pistas. Ele vai cruzar a pista auxiliar (20R/02L) e alinhar na pista principal (20L/02R). Ambas as pistas estão totalmente sinalizadas pelo balizamento noturno, como mostra a imagem.

2) Ainda às 19h04, o Latam segue na espera para ingressar à pista, enquanto um outro jato da Azul, aterrissa.

3) Menos de um minuto depois, o Latam recebe autorização para ingressar na pista. As luzes se apagam, mas o Airbus A319 segue rumo à cabeceira.

4) Às 19h06, o avião da Latam está alinhado na pista e vai decolar menos de um minuto depois. As luzes da pista seguem apagadas.

5) Hora do Incidente: Às 19h09, três minutos após a decolagem do avião da Latam, as luzes da pista principal ainda estão apagadas e o Embraer da Azul aterrissa na pista errada.

3 minutos

As dúvidas que geraram debates nas redes sociais e grupos de aviação foram: A torre não percebeu que as luzes se apagaram? Teria o piloto da Latam avisado à Torre de Controle do Santos Dumont sobre o “apagão”? Se sim, por que as luzes não foram acesas e, três minutos depois, o avião da Azul pousou na pista errada?

O pouso é um momento crítico para qualquer voo, quando os pilotos estão altamente concentrados. Isso é potencializado em aeroportos como o Santos Dumont, um dos mais críticos do mundo, com uma pista curtíssima, encrustado no meio da cidade e com obstáculos por toda a volta.

Certamente, dadas as condições acima, seria natural a qualquer piloto aproximar para a pista que estava com as luzes acesas, sendo esse um grande indutor ao erro. Felizmente, a pista auxiliar estava livre e não tinha obstáculos. Um veículo sobre ela seria suficiente para ter causado uma colisão e uma tragédia.

Próximos passos e o vídeo do incidente

De fato, toda essa situação é uma incógnita, uma vez que a transmissão da frequência de rádio da torre não foi capturada no vídeo do Aviation TV. As respostas às questões acima deverão ser respondidas pelo CENIPA e recomendações devem surgir daí, em prol da segurança de voo.

Em tese, é possível afirmar que o piloto da Latam tinha referências visuais para decolar com segurança, já que, para quem estava no solo, a pista do Santos Dumont é bastante visível à sua frente por causa da iluminação do restante do aeroporto e da própria cidade do Rio. No entanto, o mesmo não pode ser dito do piloto da Azul, que se aproximava em voo e alta velocidade.

Assista abaixo ao vídeo dos cinco minutos detalhados acima. Note que a frequência de rádio que está sendo gravada é do controle de aproximação do Rio de Janeiro e não da Torre do Santos Dumont.

Carlos Ferreira
Carlos Ferreira
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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