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Avião que vinha ao Brasil e soltou faíscas não deu sinal aos pilotos; eles nem sabiam o que havia

Cena do vídeo do incidente

Nos últimos dias, chamou atenção o vídeo do Boeing 777 que decolou dos Estados Unidos para o Brasil, na noite de quarta para quinta-feira, e emitiu uma grande quantidade de faíscas em voo, além de algumas pequenas peças (ou partes de peças) terem sido vistas caindo incandescentes ao solo (o vídeo pode ser visto novamente neste link).

Agora, a gravação das comunicações entre os pilotos e os controladores de tráfego aéreo, disponibilizada no player abaixo, mostra mais detalhes de como tudo aconteceu naquele momento do incidente e nos minutos posteriores.

Chama atenção o curioso fato de que os pilotos nem mesmo sabiam o que acontecia com a aeronave, já que esta não apresentava nenhum sinal de anormalidade nas características de voo ou nos sistemas de alerta aos tripulantes.

Veja a seguir o vídeo e, mais abaixo nesta matéria, os detalhes sobre tudo o que foi dito pelos pilotos e pelos controladores de tráfego aéreo (a depender do dispositivo sendo utilizado para assistir, pode ser possível usar o menu na parte inferior do vídeo para ativar a opção de legendas em português, geradas de forma automática).

Como visto na gravação acima, tudo começou no momento em que o controlador de tráfego aéreo da Torre do aeroporto de Newark (EWR TWR) concluía seu contato com os pilotos do voo UA-149 da United Airlines, mas, ao final, avisou:

– Parece que há faíscas que saíram…possivelmente do motor esquerdo. Você continua com a gente? (referindo-se a continuar na frequência da Torre do aeroporto ao invés de mudar para a frequência do controle de saída).

Diante do aviso, o piloto solicitou que o controlador repetisse o que foi dito, e ele respondeu que agora parecia que as faíscas já haviam se dissipado, e novamente afirmou que pareciam ter sido do motor esquerdo.

Na verdade, como visto no vídeo do incidente e nas informações posteriores, foi um problema com uma bomba hidráulica na fuselagem, e não com o motor.

Os pilotos então prosseguem para a próxima frequência de controle, e nesses momentos iniciais, o vídeo ainda mostra uma conversa entre o operador de um veículo de serviço do aeroporto de Newark (CAR96) e o controlador da Torre, falando sobre fazer uma inspeção na pista em que o Boeing 777 havia decolado. A ação é uma medida preventiva para verificar se não há qualquer peça ou sujeira deixada para trás pela aeronave.

Mais alguns minutos à frente durante a subida do voo, ao entrar em contato na frequência de um próximo setor de controle de tráfego aéreo (identificado como N90 S), o controlador comenta com os pilotos:

United 149, a Torre disse que parece ter visto faíscas saindo da aeronave quando você decolou.

O piloto responde afirmativamente, e questiona o controlador se ele teria uma localização mais precisa, se foi no motor ou na cauda. O controlador responde que ainda não tenha essa informação, e o piloto então completa afirmando que “tudo está normal com o avião até agora”.

Na sequência, o controlador volta a falar com os pilotos para avisar que a Torre afirmou que achava que as faíscas saíram do motor esquerdo.

Mais alguns instantes à frente, enquanto o avião vai ganhando altura, o controlador volta a falar com os pilotos para “apenas verificar que não há nenhuma anormalidade com o avião e se os pilotos vão precisar continuar nessa mesma frequência de comunicação”.

Dessa vez, o piloto responde:

– Afirmativo. Nós vamos fazer contato com a manutenção. Tudo está bem neste momento, mas nós ainda precisamos falar com a manutenção para ver se eles têm alguma informação. Esse avião salva uma grande quantidade de informações sem que nós saibamos, então eles vão nos dizer o que está acontecendo.

Essa é uma característica dos aviões modernos, em que seus sistemas salvam informações e as enviam em tempo real, via satélite, para a central de manutenção da companhia aérea e da fabricante do equipamento, permitindo maior precisão na identificação precoce de problemas e, com isso, maior segurança às operações aéreas.

Como o avião já se dirigia ao próximo setor de controle de tráfego aéreo, o controlador finaliza o contato com os pilotos informando que avisou ao próximo controlador sobre a situação, e que eles poderiam solicitar para o próximo caso tivessem qualquer problema.

Na sequência, o controlador do próximo setor (ZNY 67) passa as instruções iniciais ao voo 149 e então afirma que o recebeu as informações sobre a situação e pergunta se os pilotos vão continuar com o voo.

O piloto responde afirmativamente, e volta a explicar que por enquanto está tudo bem, e que eles estão fazendo contato com a manutenção para ver se há alguma informação nos dados baixados.

Pouco tempo depois, mais uma transferência para outro setor de controle é feita, e novamente o controlador avisa aos pilotos que repassou as informações para o próximo setor.

Este próximo setor (ZNY 66) também questiona os pilotos se eles estão cientes de que a Torre informou sobre ter visto faíscas (aparentemente, as informações repassada pelo controlador anterior não chegou como esperado para este próximo controlador).

O piloto agora parece responder até um pouco bravo, descrevendo que sim, está ciente das faíscas, e que já havia falado ao controlador anterior sobre estar tudo bem com o avião e estar fazendo contato com a manutenção da empresa. Ele conclui a mensagem dizendo que “Esse avião está voando bem até agora, mas agradecemos pela informação”.

Mais uma transferência de área de controle é feita, agora para a ZNY 86, mas dessa vez, com o Boeing 777 já chegando a quase 24 mil pés de altitude, o piloto avisa:

– Temos um pedido especial. Estamos reduzindo a velocidade para 270 nós, talvez 260 nós. Nós precisamos de algum tempo de órbita de espera para conversar com a companhia aérea.

O controlador responde afirmativamente ao pedido, e então, nas mensagens seguintes, ele coordena com os pilotos a posição em que seriam feitas as órbitas (trajetórias circulares) de espera.

Por fim, os pilotos voltam a falar com o controlador, dizendo:

– Nós gostaríamos de declarar emergência. Nós precisaremos alijar combustível e realizar algumas verificações aqui, e então retornar para Newark.

O alijamento é a liberação de parte do combustível no ar durante o voo para reduzir o peso do avião.

O controlador responde afirmativamente às necessidades dos pilotos, e questiona sobre qual seria a natureza da emergência. O piloto responde:

– Não é possível determinar exatamente qual é a condição do avião. Nós estamos levando a sério o fato de a Torre ter visto faíscas saindo do motor e também os comissários viram faíscas saindo momentaneamente do motor. Então, sob essas condições, nós não sabemos se o avião está aeronavegável para voar todo o percurso até São Paulo.

Logo os pilotos avisam que estão iniciando o alijamento de combustível, e o controlador emite um aviso, a todos os aviões na região, sobre haver um avião alijando combustível.

Desse momento em diante, o Boeing 777 foi mantido em espera por quase 50 minutos e então foi levado de volta a Newark, pousando em segurança.

Não há confirmação oficial sobre o problema exato apresentado, porém, conforme informações do The Aviation Herald, a inspeção de manutenção inicial indicou que o problema mecânico estava relacionado a uma das bombas hidráulicas.

Explicações adicionais foram dadas por Lito, do canal “Aviões e Músicas”, que foi mecânico de manutenção de aviões deste modelo por muitos anos. Os detalhes podem ser vistos nos dois vídeos a seguir:

Vídeo 1 – Explicações sobre a ocorrência

Vídeo 2 – Resposta a dúvidas sobre a ocorrência