“El Palomar ou Nada”, a dura nota da Flybondi ao governo da Argentina

Flybondi divulgação

As companhias aéreas privadas argentinas ainda lutam para manter a cabeça fora da água, na medida em que veem seu tamanho diminuir substancialmente em meio à pandemia e às medidas polêmicas do governo local. Recentemente, a Flybondi, que não se expõe muito em termos de política, resolveu soltar o verbo numa dura nota intitulada “El Palomar ou Nada” e datada de domingo, 25 de outubro.

Descontente com as formas pelas quais a aviação argentina é retomada e, especialmente, ao impedimento de voos partindo do aeroporto El Palomar, a empresa emitiu a seguinte mensagem, aqui traduzida ao português:

A nota

Seguindo as informações veiculadas na mídia, a Flybondi apurou que o Órgão Regulador do Sistema Aeroportuário Nacional (ORSNA) informou à Administração Nacional de Aviação Civil (ANAC) que o Aeroporto Internacional de Ezeiza é o único terminal que permanecerá operacional para voos regulares.  

Embora a companhia aérea ainda não tenha sido oficialmente notificada e nem seja conhecido qualquer detalhe sobre o alcance desta medida no Aeroporto Internacional de El Palomar, entende-se que apontaria para que ele não continuasse a operar quaisquer tipos de operações regulares de transporte aéreo de passageiros, ocasionando assim a transferência das operações da empresa para Ezeiza.

A Flybondi expressa sua rejeição mais absoluta a essa decisão, cujos argumentos estão totalmente abertos a questionamentos; mas o que é ainda mais grave é que expõe a má gestão regulatória e a total ausência de planejamento e coordenação, gerando duas vítimas claras: passageiros e trabalhadores.  

Recorde-se que no dia 14 de outubro, o Ministro dos Transportes da Nação, Mário Meoni, juntamente com o Ministro do Turismo e Desportos, Matías Lammens, e acompanhados pela Administradora Nacional da ANAC, Paola Tamburelli, confirmaram publicamente e em entrevistas subsequentes em vários meios de comunicação, que o Aeroporto El Palomar continuaria a operar. 

Da mesma forma, no dia 6 de outubro, os prefeitos Lucas Ghi, de Morón, Juan Zabaleta, de Hurlingham, e Diego Valenzuela, de Três de Febrero, foram convocados pelo ministro Meoni para comunicar seu compromisso com a continuidade dos voos regulares no Aeroporto El Palomar, tendo como eixo fundamental de valorização os milhares de empregos que a sua atividade gera e que estariam em risco se o encerramento se procedesse.   

“Voar de Ezeiza não é uma opção comercial para Flybondi e nem para nossos passageiros, e as autoridades governamentais e reguladoras estão cientes dessa realidade. A decisão deles mostra a falta de respeito pelos passageiros que compraram passagens para voar de El Palomar e que até o momento não sabem de onde sairá o seu voo, sem contar os milhares de passageiros que só podem viajar de avião se o fizerem a partir de um aeroporto acessível por transportes públicos. Também estamos muito chocados que neste contexto de complexidade econômica e profunda crise do setor, milhares de empregos estão em risco ”, declarou Esteban Tossutti, presidente da empresa. 

“Vamos pedir às autoridades que revejam esta medida e realmente esperamos que tomem as decisões acertadas que colocam os passageiros, os funcionários e o trabalho genuíno no centro. Além disso, caso seja um aspecto valorizado, seria importante que suas decisões não busquem afetar a perenidade de um modelo de negócio que em pouco mais de dois anos conseguiu democratizar o avião como meio de transporte e transformá-lo em uma opção acessível a todas as pessoas deste país “, acrescentou o executivo.

O Aeroporto Internacional El Palomar (EPA) é o primeiro aeroporto de baixo custo da Argentina e o único da América Latina. Gera empregos para mais de 1.000 pessoas diretamente, das quais 80% são pessoas que vivem na área. 

Desde o início da operação comercial, em fevereiro de 2018, mais de 2.890.000 passageiros já passaram pela EPA, dos quais 20% são pessoas que viajaram de avião pela primeira vez na vida. Em quase três anos, El Palomar já é o 4º. Aeroporto da Argentina com o maior número de passageiros domésticos e o 6º. com total de passageiros. Por sua vez, foi o aeroporto da Argentina com maior crescimento entre 2019 e 2020. 

Em resumo

A Flybondi diminuiu de uma frota de 5 aeronaves para apenas duas (sendo que uma delas está nos Estados Unidos) e ainda luta contra a incerteza gerada pela falta de decisões consistentes do governo quanto à retomada dos voos.

Os planos de retorno da empresa estavam desenhados para esse final de outubro, mas diante da “surpresa” com o impedimento de voos no El Palomar, a companhia não sabe como lidará com isso e seu futuro ganha um novo ponto de interrogação.

Carlos Ferreira
Managing Director - MBA em Finanças pela FGV-SP, estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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