FAB não vai vender ou devolver seus helicópteros russos, mas sim estocá-los

A chegada dos raros helicópteros russos Mi-35 Hind na capital mineira, na semana passada, não passou despercebida, mas foi uma das últimas já que o helicóptero está saindo de serviço.

Como foi informado aqui em fevereiro, a Força Aérea Brasileira (FAB) decidiu aposentar o único modelo de aeronave russa que já esteve em sua frota, o Mil Mi-35M Hind, versão de exportação do lendário Mi-24. O helicóptero de ataque, mas que também leva até oito soldados, tem design único e exótico, parecendo um crocodilo. Poucos equivalentes ocidentais conseguem despejar poder de fogo e desembarcar tropas igual a ele, tornando-o um vetor valioso.

No entanto, ao mesmo tempo, o helicóptero sofre com algumas práticas de seu próprio país, já que historicamente a Rússia (e a URSS) nunca contaram com um serviço pós-venda adequado, registrando atrasos no envio de peças, burocracia para compra de equipamentos e outras dificuldades.

Os helicópteros chegaram em 2010, como parte de uma compensação que o governo brasileiro fez, na época, após a Rússia retirar o banimento de importação da carne nacional. Naquele momento, o “crocodilo russo” foi bem-vindo, já que o Brasil nunca contou com um helicóptero de ataque dedicado.

A possibilidade de levar tropas também agradava, já que poderia ser utilizado em interceptações de aeronaves pequenas, das quais pilotos do tráfico costumam fugir após o pouso.

Passados 12 anos, pouco disso se tornou realidade e os helicópteros baseados em Porto Velho pouco operaram, além de ter que voar até Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, para fazer manutenção no Parque de Material Aeronáutico da cidade, e também na IAS – Indústria de Aviação e Serviços, na vizinha São José da Lapa, única habilitada no país para trabalhar com o Hind.

Todos estes fatores, e outros não revelados, levaram a FAB a aposentar o Hind. A decisão foi tomada pouco antes da Rússia invadir a Ucrânia, onde o Hind foi uma das grandes figuras da guerra em ambos os lados, mas de maneira negativa, já que ao menos 10 foram abatidos, a maioria com perda total e morte dos tripulantes.

Apesar da proximidade de Bolsonaro e Putin, a decisão da FAB de aposentadoria do Mi-35, batizado de AH-2 Sabre na FAB, não foi modificada e, com a guerra, o fornecimento de peças só iria piorar.

Sem compradores no horizonte, a FAB decidiu por estocar os AH-2 Sabre em Lagoa Santa. Mais duas já chegaram de Porto Velho para Minas Gerais e as duas últimas devem chegar nesta semana, sendo que uma delas pode seguir para o Rio de Janeiro, onde fará parte do acervo do Museu Aeroespacial (MUSAL).

Com a saída do Hind, o Brasil volta a ficar novamente sem um helicóptero de ataque, já que o projeto do Exército para um helicóptero dedicado para esta função está parado há anos.

Carlos Martins
Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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