O dia em que passageiros voaram sentados em cima de um Picasso de $50 milhões

Foto: Kambui, CC BY 2.0, via Wikimedia

Discretamente, em 1981, a empresa espanhola Iberia foi encarregada de transportar uma das mais valiosas cargas de sua história, em uma das maiores restituições de obra de arte já realizadas. Até hoje, a volta para casa de Guernica, obra máxima de Pablo Picasso, é lembrada com entusiasmo pelos tripulantes daquele voo especial.

Guernica é um dos quadros mais famosos do pintor espanhol. Recentemente, foi estimado em mais de US$50 milhões em uma casa de leilões. Ele foi pintado em 1937 sob encomenda da ditadura de extrema-direita do general Francisco Franco. O objetivo do governo era representar a glória da Espanha na Exposição Internacional de Artes e Técnicas, que aconteceria em Paris naquele ano. Quando o artista soube do massacre ocorrido na cidade basca de Guernica, ele fez do desastre o tema de sua tela.

Guernica: tela de 7,77m por 3,49m representa bombardeio da cidade basca de mesmo nome em 1937.

O que era para ser uma peça de propaganda enfureceu o ditador. A tela mostrava o sofrimento e a dor do povo atacado por aliados do governo ao protestar contra o autoritarismo. O quadro foi banido e, por determinação de Pablo Picasso, cedido para ao Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, onde passaria em segurança por mais de 40 anos. O retorno à terral natal só possível seis anos após a morte do ditador, em 1975.

Foi um momento histórico para a Espanha, não apenas pelo valor artístico da obra, mas pelo simbolismo que a restituição representava.

A história foi divulgada pela própria Ibéria, em celebração às quatro décadas do voo, completadas em setembro passado. A companhia ouviu duas comissárias que estavam a bordo e testemunharam o momento histórico.

Voo histórico

O voo 952 decolou no dia 9 de setembro de 1981 do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, Estados Unidos, para Madri-Barajas, na capital da Espanha. O Boeing 747-200 levava 319 passageiros e 19 tripulantes. A tela de 7,77m por 3,49m viajou enrolada e cuidadosamente embalada em uma caixa de madeira no porão do Jumbo “Lope de Veja”, matrícula EC-DLD. Por medida de segurança, o menor número possível de pessoas foi envolvido na operação.

Uma vez no solo, o comandante do avião, Juan López Durán, informou aos passageiros pelo sistema de som com a seguinte mensagem: “Senhoras e senhores, bem-vindos a Madrid. Devo dizer que vocês acompanharam a viagem da Guernica de Picasso em seu retorno à Espanha”. O anúncio foi seguido por aplausos e euforia pelos passageiros e tripulantes. Isabel Almazán e Beatriz Ganuza foram duas das comissárias que estavam da Cabine de Passageiros naquele dia.

“Fiquei muito feliz quando soube, na chegada em Barajas, que nosso voo havia trazido o Guernica. Foi muito emocionante quando todos nós soubemos do grande acontecimento que havíamos vivido”, disse Isabel, em vídeo para o site da companhia aérea. Confira o depoimento abaixo, na versão original, em espanhol.

“Quando o comandante anunciou que levávamos o Guernica conosco, ocorreu uma grande ovação de todos os passageiros, muitos aplausos e alegria. Quando a porta se abriu, todos queríamos ver o quadro e nos demos conta da magnitude daquele evento”, declarou Beatriz. Confira o vídeo original abaixo.

O museu Casón del Buen Retiro foi o primeiro destino da pintura a óleo, onde permaneceu até 1992. Naquele ano, foi transferida para o Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, na capital espanhola, onde permanece hoje.

Informações: Grupo Iberia

Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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