Sequestro mais misterioso da história da aviação segue sem solução há 50 anos

Boeing 727 em Seattle, antes da libertação dos reféns.

Um dos crimes mais espetaculares da história da história da aviação segue envolto em mistérios mesmo após cinco décadas de investigação. Em 1971, o enigmático DB Cooper desapareceu com o dinheiro do resgate após sequestrar, sozinho, um Boeing 727 e saltar de paraquedas para desaparecer na história.

De acordo com dados divulgados pelo FBI, a polícia federal norte-americana, na tarde de 24 de novembro de 1971, véspera do Dia de Ação de Graças, feriado mais popular entre os viajantes dos Estados Unidos, um passageiro, como tantos outros, se aproximou do balcão de check-in da Northwest Orient Airlines no Aeroporto de Portland, no estado do Oregon.

Ele se identificou como Dan B. Cooper e usou dinheiro-vivo para comprar uma passagem só de ida no voo 305 com destino a Seattle, no noroeste do país. Segundo testemunhas, Cooper era um homem branco, cabelos castanhos, quieto e que parecia estar na casa dos 40 anos. Estava sozinho e vestia um terno com gravata preta e camisa branca. Embarcou normalmente e, assim que o avião decolou, pediu à comissária de bordo um whisky e refrigerante.

Retrato falado do sequestrador. IMAGEM: FBI

Bomba na mala

Pouco depois das 15h, ele entregou à mesma aeromoça um bilhete, no qual informava que tinha uma bomba na maleta que carregava e queria que ela se sentasse ao lado dele sem fazer perguntas. Atordoada, a comissária obedeceu. Cooper, calmamente, abriu a maleta e mostrou a ela  uma massa de fios e varas vermelhas que a deixou apavorada. O homem então mandou que ela entregasse ao comandante uma carta, onde exigia US$ 200 mil em notas de 20, além de quatro paraquedas.

Assim que soube do que ocorria a bordo, o piloto informou às autoridades. Sob escolta, o avião seguiu seu curso até Seattle, onde pousou às 17h24. Os passageiros não foram informados do que acontecia a bordo até o pouso ocorrer em meio a um forte aparato de segurança.

No solo, Cooper aceitou libertar  todos os 36 passageiros em troca do dinheiro e dos paraquedas, que foram entregues pelos policiais. No entanto, o sequestrador manteve cativa a tripulação como garantia de sua sobrevivência e mandou desligar todas as luzes a bordo.

O bandido, então, ordenou que a aeronave decolasse novamente, com destino ao México. Minutos depois da partida, às 20h, se deu o fato mais inacreditável da história. Cooper mandou os pilotos reduzirem ao máximo a altitude do voo. Em seguida, abriu a porta traseira do Boeing 727 e pulou do avião vestindo um dos paraquedas, desaparecendo na noite com o dinheiro do resgate. O avião pousou com segurança, mas Cooper nunca mais foi encontrado.

Durante o sequestro, Cooper estava usando esta gravata JC Penney preta, que ele removeu antes de pular;  mais tarde, ela nos forneceu uma amostra de DNA.
Gravata usada por Cooper durante o voo, removida antes do salto; anos depois, ela forneceu uma amostra de DNA. IMAGEM: FBI

O FBI mantém, até hoje, a imagem de Cooper na sua lista de procurados. Durante a extensa investigação, centenas de pessoas foram ouvidas, uma larga área de campos foi rastreada, pistas de pouso em todo o país foram vistoriadas, mas nada de concreto foi levantado. O sequestrador que, logo se soube, usara nome e documentação falsos, passou a ser chamado de NORJAK, de Northwest Hijacking (Sequestro da Northwest).

Suspeito numero 1

Mais de 800 suspeitos foram listados e investigados. A lista acabou reduzida a pouco mais de 20 e, hoje, um nome segue com forte potencial de culpa. Ele é Richard Floyd McCoy, suspeito favorito entre muitos investigadores que se envolveram no caso nestas cinco décadas.

Em 7 de abril de 1972, quase seis meses depois do caso NORJAK, McCoy sequestrou um Boeing 727 da United Airlines que voava de Nova York para Los Angeles com 85 passageiros. Usou o nome falso James Johnson e pediu US$ 500 mil para não explodir uma granada de mão ou matar alguém com uma pistola que carregava. Em Denver, no estado do Colorado, libertou os passageiros, manteve os tripulantes e exigiu a decolagem. No ar, pulou da porta traseira usando um paraquedas.

McCoy foi preso dois dias após o sequestro, após um motorista o reconhecer como o sujeito ao qual deu carona naquela noite. Dentro de sua casa, os agentes do FBI encontraram um macacão e uma mochila cheia de dinheiro totalizando $ 499.970. O mais curioso: McCoy era agente na Guarda Nacional e pilotava um dos helicópteros que participava da busca dele mesmo.

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Richard McCoy, o principal suspeito. IMAGEM: FBI

Mais mistério

Apesar da semelhança entre os casos, a polícia nunca conseguiu provas suficientes para relacionar McCoy ao caso da Northwest. Vítimas do sequestro não reconheceram o suspeito como sendo Cooper, embora as descrições físicas coincidissem em quase tudo. Álibis disseram que o homem estava em casa na noite do crime.

Ele negou todas acusações, porém foi condenado a 45 anos de prisão pelo caso United. Em 1974, junto com outros presos, protagonizou uma fuga cinematográfica envolvendo pasta de dente e aparelhos odontológicos, mas foi recapturado pouco depois.

Oficialmente, uma das hipóteses mais aceitas pela polícia é a de que Cooper tenha morrido após o salto. O paraquedas que ele usou não podia ser dirigido, as roupas e calçados que vestia eram inadequados para uma aterrissagem brusca e ele ainda caiu em uma área arborizada à noite, algo arriscado até mesmo para paraquedistas experientes.

Em 1980, um menino encontrou na floresta um pacote apodrecido cheio de notas de vinte dólares (US$ 5.800 ao todo) que correspondiam aos números de série do dinheiro do resgate. Nenhum corpo foi achado.

Kids find tattered D.B. Cooper money near Columbia River - Newspapers.com
Reportagem de 1980 sobre dinheiro do resgate encontrado perdido na floresta. IMAGEM: Newspaper.com

O caso segue aberto. Em 1991, os agentes do FBI, Bernie Rhodes e Russell P. Calame, publicaram um livro em que dizem ter certeza que Cooper e McCoy eram a mesma pessoa. A esposa de McCoy, que foi presa por envolvimento no sequestro da United, processou os autores por calúnia e o FBI não endossou a denúncia.

Recentemente, o jornalista investigativo, instrutor de voo comercial e paraquedista Dan Gryder, lançou um documentário no qual os filhos de McCoy, Richard McCoy III e Chante McCoy admitem que seu pai era DB Cooper e que sua mãe, Karen McCoy, foi cúmplice de ambos os sequestros.

O filme de Gryder oferece possíveis evidências de vários erros ou supostos acobertamentos na investigação do FBI, incluindo uma entrevista com a irmã de Karen, Denise. Ela diz ter mentido em depoimento à policia e agora diz que o casal McCoy não estava em casa no Dia de Ação de Graças e que ela “cuidou das crianças por 3 ou 4 dias durante as festas”.  O FBI não comentou esse caso e, por isso, seguiu atiçando a curiosidade dos amantes de histórias de mistério.

Informações: Federal Bureau of Investigation

Fabio Farias
Jornalista e curioso por natureza. Passou um terço da vida entre aeroportos e aviões. Segue a aviação e é seguido por ela.

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