Southwest acusada de pedir à Boeing para ludibriar as autoridades com o 737 MAX

Uma suposta tentativa de enganar as autoridades americanas teria sido proposta não pela Boeing, mas pela principal cliente do 737 MAX. Caso isso se confirme, seria a denúncia mais grave do caso MAX até o momento, envolvendo uma empresa aérea.

Boeing 737 MAX 8 | Divulgação – Southwest Airlines

A Southwest Airlines, empresa criadora do modelo de operação de baixo-custo e também a maior cliente do Boeing 737, com mais de 700 aeronaves do modelo na sua frota, teria participado de um conluio com a Boeing para enganar a FAA. A grave denúncia foi feita por um escritório jurídico dos Estados Unidos e noticiada pelo Seattle Times.

O desenvolvimento da última geração da família 737, a MAX, levou muito em conta a opinião da empresa aérea, afinal era, e segue sendo, a principal cliente do modelo. Inclusive, muitas pessoas tentaram, sem sucesso até agora, culpar indiretamente a Southwest pelos problemas de projeto que levaram aos acidentes em 2018 e 2019, os quais vitimaram 346 pessoas na Etiópia e Indonésia.

A culpabilidade se daria pelo fato de o MAX ser um avião modificado da família Next Generation (NG). No entanto, para manter as mesmas características de voo da geração anterior em determinadas situações, mesmo com uma aerodinâmica diferente (principalmente por causa do novo grande motor e novas asas), a Southwest teria atuado junto à Boeing na instalação do MCAS.

O sistema MCAS controla o 737 MAX em determinada fases do voo para garantir sua estabilidade. Acontece que este sistema, totalmente desconhecido da maioria dos pilotos, falhou por problemas de alimentação de dados e resultou em duas tragédias. Lembrando que, à época, não havia treinamento para que os tripulantes respondessem a alertas na cabine relacionado com tal sistema.

Um pedido indecente

Agora, um grupo de advogados levantou uma denúncia de que a empresa aérea sabia do MCAS e havia feito um conluio com a Boeing para enganar as autoridades, ocultando o fato de se tratar de uma aeronave com voo diferente do NG. Como parte desse acordo espúrio, a Southwest teria pedido que um sistema de alerta de controle de voos (provavelmente relacionado ao MCAS) fosse instalado em apenas um dos 737 mais antigos da companhia, da série NG.

O propósito deste suposto pedido da Southwest, segundo os advogados de acusação, seria para pura e simplesmente ludibriar a FAA, que estava certificando a aeronave. Com esse módulo, a Boeing teria o argumento de que a geração anterior teria mais em comum com a nova do que realmente tinha.

O processo, que corre no Texas, estado natal da Southwest, acusa Bill Lusk, diretor da Southwest, de ter pedido aos seus parceiros na Boeing para instalar este “módulo”, e que ele fosse retirado do 737 mais antigo, logo após a certificação do avião.

Boeing 737-800 NG | Divulgação – Southwest Airlines

O RCAS

Este novo módulo foi chamado de RCAS, ou Sistema de Alerta de Rolamento em inglês. Ele tenta evitar acidente como o do voo Aeroflot 821, quando pilotos russos se desorientaram durante uma curva num voo noturno, sendo uma das causas a falta de familiaridade com sistemas ocidentais e a reação do piloto automático do Boeing 737-500, que tentou nivelar o avião, mas os pilotos entenderam que ele estava piorando a situação, e agiram para aumentar a curva, levando ao acidente.

O RCAS entraria como um sistema de alerta de voz falando para onde o piloto deveria curvar, em instruções similares aos sistemas já existentes de aviso de proximidade de terreno. No caso o novo módulo iria falar para os pilotos para “virar para a esquerda” ou “virar para a direita”, a fim de manter o avião nivelado. A proposta da Southwest era colocar esse sistema nos aviões antigos, o que foi oferecido pela própria Boeing como um retrofit (atualização) dos NG, mas a Southwest só queria colocar e tirar ele assim que o MAX fosse certificado.

É difícil acreditar com outro motivo que não seja enganar a FAA, é realmente terrível”, afirmou Mary Schiavo, antigo Inspetor-Geral do Departamento dos Transportes dos EUA, em entrevista à Dominic Gates do Seattle Times, que revelou a acusação feita na corte texana. Os detalhes do processo não foram revelados pois o conteúdo segue em segredo de justiça.

Rick Ludtke, antigo engenheiro da Boeing e que ficou famoso ao falar com a CNN sobre o caso 737 MAX, citando que a fabricante pressionou ele e seus colegas para que não tivesse mudança no treinamento do NG para o MAX, falou da proposta da Southwest.

Ludtke também foi o responsável por criar o novo sistema de alerta, mas quando a ideia da Southwest foi levada para ele por seus superiores na Boeing, ele afirma ter pensado ser brincadeira: “Nós rimos deles (da Southwest), pensamos que eles estavam loucos”. Para o engenheiro seria razoável fazer o retrofit, já que traria maior segurança para todos os voos da companhia, mas a Southwest estaria preocupada com possíveis custos de treinamento para todos os pilotos do 737 NG, e por isso propôs retirar o módulo após a certificação do novo jato.

“Nós sempre evitamos novas manobras. Pilotos não teriam que fazer nada do que já sabem bem. Eu sabia do risco disso. Me deixou maluco como eles estavam preocupados que esta diferença do MAX pro NG fosse causar problema“, conclui o engenheiro, alertando que apenas um aviso sonoro não iria mudar o treinamento dos pilotos ou o processo de certificação.

Enquanto o processo ainda corre em justiça, a Boeing e a Southwest não quiseram comentar o assunto.

Carlos Martins
Carlos Martins
Fascinado por aviões desde 1999, se formou em Aeronáutica estudando na Cal State Long Beach e Western Michigan University. Atualmente é Editor-Chefe no AEROIN, Piloto de Avião, membro da AOPA, com passagem pela Avianca Brasil. #GoBroncos #GoBeach #2A

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