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Airbus A340 voou em contingência oceânica sobre o Atlântico; entenda a situação

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Os pilotos de um Airbus A340 colocaram em prática procedimentos especiais de contingência em voo em espaço aéreo oceânico após enfrentarem condições climáticas adversas quando cruzavam o Oceano Atlântico na última terça-feira, 15 de dezembro. Veja a seguir a sequência da ocorrência e o que significam estes procedimentos.

Airbus A340-600 – Imagem: Maleth Aero

Como tudo aconteceu

Segundo informações reportadas pelo The Aviation Herald, o avião envolvido foi o Airbus A340-600 registrado sob a matrícula 9H-PPE, operado pela empresa aérea Maleth Aero.

O quadrijato estava realizando o voo de número DB-221 de Bournemouth, na Inglaterra, para Nova Iorque, nos Estados Unidos, com 5 pessoas a bordo, quando a situação incomum se fez presente.

O A340 estava mantendo o nível de voo de cruzeiro FL380 sobre o Oceano Atlântico quando a tripulação reduziu sua velocidade em preparação para passar por uma área de previsão de turbulência moderada, cerca de 660 milhas náuticas (1220 quilômetros) a leste-nordeste de Goose Bay, no Canadá.

A turbulência, entretanto, aumentou para severa, e os pilotos decidiram reduzir a altitude para um nível de menor instabilidade. Porém, a severidade da turbulência tornou impossível para a tripulação digitar uma solicitação de descida no CPDLC (Controller–Pilot Data Link Communications, ou Comunicações de Link de Dados Controlador-Piloto). CPDLC permite que piloto e controlador de tráfego aéreo troquem mensagens de texto sobre as autorizações de voo em região de comunicação limitada de rádio.

A tripulação também foi incapaz de estabelecer contato com o controle canadense de tráfego Gander Oceanic da região através do rádio HF. O HF geralmente é utilizado sobre o Oceano por emitir ondas capazes de percorrer distâncias muito maiores do que os rádios VHF/UHF comumente usados em áreas com boa cobertura de antenas de comunicação.

Diante da incapacidade de contato para o pedido de alteração de nível, os pilotos colocaram em prática os procedimentos especiais de contingência oceânica, transmitindo uma chamada PAN PAN e descendo para o nível de voo FL340. PAN PAN é o sinal de urgência padrão internacional que alguém a bordo de um barco, navio, aeronave ou outro veículo usa para declarar que tem uma situação urgente, mas, por enquanto, não representa um perigo imediato para a vida de ninguém ou para a própria aeronave, embarcação, etc.

No gráfico da imagem a seguir, é possível notar a redução de velocidade (linha amarela a partir das 16:00) e, algum tempo depois, a descida do FL380 para o FL340 (linha azul a partir das 16:30).

Informações do voo do Airbus A340-600 – Imagem: FlightRadar24

Após algum tempo, o Gander Oceanic foi capaz de receber a comunicação do A340 e concedeu a autorização de voo para o nível FL340. A tripulação então cancelou o PAN PAN e continuou para o destino sem mais incidentes, pousando no aeroporto JFK de Nova Iorque cerca de 4 horas depois.

O Conselho de Segurança de Transporte (TSB) do Canadá informou que não houve feridos apesar da forte turbulência, e que, após o pouso, os dados de voo do gravador de acesso rápido foram baixadas e a análise mostrou que as cargas estruturais na aeronave permaneceram dentro dos limites. Uma inspeção da aeronave não encontrou nenhuma falha.

Procedimentos Especiais

A Administração Federal de Aviação (FAA) dos Estados Unidos estabelece, em uma ‘International Notice‘, procedimentos especias para situações de Contingência em Voo no Espaço Aéreo Oceânico que nos permitem entender melhor as ações da ocorrência com o Airbus A340.

Segundo a FAA, embora todas as contingências possíveis não possam ser cobertas, os procedimentos descritos preveem os casos mais frequentes, tais como:

– Incapacidade de cumprir com a liberação atribuída pelo Controle de Tráfego (ATC) devido às condições meteorológicas;
– Desvio de rota através do fluxo de tráfego predominante (por exemplo, devido a emergências médicas;
– Uma perda ou redução significativa da capacidade de navegação necessária ao operar em espaço aéreo onde a precisão do desempenho de navegação é um pré-requisito para a segura realização de operações de voo; ou
– Em caso de falha de pressurização.

O piloto deverá tomar as medidas necessárias para garantir a segurança da aeronave, e seu julgamento deve determinar a sequência de ações a serem tomadas em relação às circunstâncias prevalecentes. O controle de tráfego aéreo prestará toda a assistência possível.

Os procedimentos

Se uma aeronave não for capaz de continuar o voo de acordo com sua autorização ATC, uma autorização revisada deverá ser obtida, sempre que possível, antes de iniciar qualquer ação.

Se a autorização prévia não puder ser obtida, exatamente como aconteceu com o Airbus A340, os seguintes procedimentos de contingência devem ser empregados até que uma autorização revisada seja recebida:

– Livrar a rota ou aerovia virando inicialmente pelo menos 30 graus para a direita ou para a esquerda para interceptar e manter uma rota com rumo paralelo na mesma direção, deslocado lateralmente em 9,3 km (5,0 milhas náuticas);

Esquematização do desvio lateral – Fonte: FAA

– A aeronave deve voar em um nível de voo e em uma rota deslocada onde outras aeronaves são menos prováveis ​​de serem encontradas;

– Observar tráfego conflitante tanto visualmente quanto pelo ACAS (se equipado), deixando o ACAS no modo RA o tempo todo, a menos que os limites operacionais da aeronave determinem o contrário;

– Ligar todas as luzes externas da aeronave (de acordo com as limitações operacionais apropriadas);

– Manter o transponder SSR ligado o tempo todo e, quando possível, acionar código 7700, conforme apropriado;

– Assim que possível, o piloto deverá avisar o controle de tráfego aéreo de qualquer desvio da autorização atribuída;

– Usar todos os meios apropriados (ou seja, voz e/ou CPDLC) para se comunicar durante uma contingência ou emergência;

– Caso seja utilizada comunicação por voz, deverá ser utilizado o sinal de emergência MAYDAY ou o sinal de urgência PAN PAN, preferencialmente falado três vezes;

– Quando as situações de emergência são comunicadas via CPDLC, o controlador pode responder via CPDLC. No entanto, o controlador também pode tentar fazer contato de comunicação de voz com a aeronave;

– Estabelecer comunicações com aeronaves próximas transmitindo em intervalos adequados em 121,5 MHz (ou como backup na frequência inter-piloto ar-ar de 123,45 MHz). Transmitir também quando apropriado na frequência em uso: identificação da aeronave, a natureza da condição de socorro, intenção da pessoa no comando, posição (incluindo o designador de rota ATS ou o código de rota, conforme apropriado) e nível de voo; e

– O controlador deve tentar determinar a natureza da emergência e verificar qualquer assistência que possa ser necessária. A ação ATC subsequente com relação a essa aeronave deve ser baseada nas intenções do piloto e na situação geral do tráfego.

A quem interessar, a International Notice da FAA, que estabelece os procedimentos acima descritos e outros detalhes adicionais, pode ser acessada na íntegra clicando aqui.