Boeing 727 que voava no Brasil é visto realizando voos de carga para grupo rebelde africano

Boeing 727 da Total em Vitória

Um jato Boeing 727 que voou por anos no Brasil está hoje realizando voos logísticos na África para um grupo rebelde apoiado por nações estrangeiras.

A aeronave, que ostentava a matrícula PR-TTW, pertencia à Total Linhas Aéreas, que recebeu o trijato em 2010 e voou com ele até 2024, quando o avião foi vendido para uma empresa aérea da África, sem muitos detalhes serem revelados.

Agora, uma longa investigação da Reuters apontou que a aeronave está sendo operada pelo grupo CADG, com sede em Cingapura e liderado por Steven Shaulis, um ex-militar americano das forças especiais. Essa empresa tem contratos com o Pentágono e com as Nações Unidas, principalmente relacionados à logística pesada na África e na Ásia.

Fotos de satélite e levantamento feito por fontes locais apontam que a aeronave de número de série 22438 está sendo operada em conjunto com outro 727, de número de série 21951, e também com um 737-200 de número de série 22577, operando sob a marca IBM Airlines e que foi destruído no ano passado. Todos os três jatos estão baseados em N’Djamena, no Chade, que serve como posto logístico para a CADG.

Os aviões estariam sendo usados para levar equipamentos e suprimentos para a RSF, sigla das Forças de Suporte Rápido. O grupo surgiu como uma divisão auxiliar das forças armadas do Sudão e foi posteriormente convertido em grupo paramilitar, que se rebelou contra o governo sudanês em 2023, tomando parte do país e tentando derrubar o governo atual para controlar toda a nação africana.

O 737 destruído em maio de 2025 pelas forças sudanesas em Nyala, um conhecido reduto da RSF, mostrou que o jato pertencia à Occidental Support Services, empresa que integra a CADG e é registrada nos Emirados Árabes Unidos, país apontado como apoiador da RSF, principalmente no campo logístico, incluindo o fornecimento de armas.

Nesse ataque contra o Boeing 737, os três tripulantes teriam morrido, sendo um do Sudão do Sul, outro do Quênia e um do Peru.

Já sobre os jatos 727, a reportagem da Reuters aponta que ambos os aviões, inclusive a segunda aeronave, que era operada pela Kalitta Air Charters, do estado americano de Michigan, chegaram à África após fazerem uma escala em Natal, em dezembro do ano passado, fato revelado pelo AEROIN em primeira mão. A Total Linhas Aéreas confirmou que vendeu a aeronave a um negociador de aviões por US$ 1 milhão, e documentos da ANAC confirmam que o trijato foi para a Occidental Support.

Na ocasião da saída do 727 que era da Total, era do conhecimento de pessoas próximas à operação que os pilotos brasileiros não fariam o translado até a África e que também não foi divulgado pelo comprador qual seria a nova matrícula dos aviões nem em que país operariam, com os Boeings literalmente “sumindo dos radares” após cruzarem o Atlântico.

A apuração da Reuters aponta apenas que a CADG é um braço logístico da RSF, não sendo de fato um grupo paramilitar ou uma empresa militar privada, termos técnicos para organizações mercenárias bastante comuns na África. Oficialmente, o governo dos Emirados Árabes Unidos afirma apenas que fornece ajuda humanitária ao Sudão, enquanto os contratos da CADG com o Pentágono e com a ONU são relacionados a trabalhos logísticos e de construção de estruturas, sem envolvimento com transporte de armamento ou funções de segurança.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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