Caso semelhante ao da Voepass: queda de avião Caravan no Alasca foi causada por falhas em condições severas de gelo

Divulgação – USCG

O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) concluiu que o gerenciamento inadequado da velocidade da aeronave durante condições severas de formação de gelo, aliado à operação acima do peso máximo permitido, foi a principal causa da queda de um Cessna C208B Caravan da Bering Air, acidente que matou 10 pessoas no Alasca em fevereiro de 2025.

O relatório final foi divulgado nesta quinta-feira (30) e detalha as circunstâncias do acidente envolvendo o voo 445 da Bering Air, que ocorreu em 6 de fevereiro de 2025 durante a etapa final de um voo regular com destino a Nome, no estado americano do Alasca.

A aeronave caiu sobre uma área de gelo marinho cerca de 12 milhas náuticas (22 quilômetros) da costa de Norton Sound. O piloto e os nove passageiros morreram no acidente.

Condições de gelo agravaram a situação

Segundo a investigação, o avião enfrentou condições de formação de gelo mais severas do que as previstas nas previsões meteorológicas, incluindo a presença de grandes gotículas de água super-resfriada.

Os investigadores analisaram dados eletrônicos armazenados nos sistemas aviônicos da aeronave e concluíram que o sistema de proteção contra gelo funcionou conforme o projeto, impedindo o acúmulo significativo de gelo nas superfícies protegidas.

Entretanto, o NTSB apontou que o gerenciamento desse sistema aumentou significativamente a carga de trabalho do piloto durante a preparação para o procedimento de aproximação ao Aeroporto de Nome, cujas pistas haviam sido temporariamente fechadas para operações de degelo.

Segundo o órgão, essa combinação de fatores reduziu a consciência situacional do piloto, permitindo que a velocidade diminuísse progressivamente até que a aeronave entrasse em estol aerodinâmico, condição da qual não conseguiu se recuperar, numa situação bastante similar ao ocorrida com o ATR 72 da Voepass em 2024, cujo relatório final foi divulgado também recentemente.

A investigação também concluiu que o fato de o avião estar operando acima do peso máximo de decolagem reduziu ainda mais a margem de segurança antes do estol, diminuindo as chances de recuperação da aeronave.

Operações acima do peso eram recorrentes

Divulgação – Bering Air

Durante a investigação, o NTSB identificou falhas nos procedimentos internos da Bering Air para avaliação de risco e controle operacional.

Segundo o relatório, a empresa não conseguiu impedir que aeronaves operassem rotineiramente acima dos limites de peso estabelecidos. Os investigadores encontraram um padrão de subnotificação do peso das aeronaves nos manifestos de carga da companhia, permitindo que diversos voos fossem realizados acima das limitações certificadas.

O órgão também concluiu que a Administração Federal de Aviação (FAA) não ampliou sua supervisão sobre a Bering Air mesmo após o rápido crescimento da empresa e o aumento da complexidade de suas operações no período pós-pandemia, agravado pela falência de uma importante concorrente regional.

NTSB faz novas recomendações

A presidente do NTSB, Jennifer Homendy, afirmou que o acidente foi resultado de uma sequência de falhas evitáveis: “A tragédia do voo 445 não foi resultado de uma única falha, mas de uma série de deficiências que poderiam ter sido evitadas e que reduziram progressivamente as margens críticas de segurança“, afirmou.

Ela destacou ainda a importância da aviação para as comunidades isoladas do Alasca e disse que a implementação das recomendações do órgão ajudará a evitar acidentes semelhantes no futuro.

Como consequência da investigação, o NTSB emitiu novas recomendações de segurança à FAA, incluindo a exigência de treinamento para prevenção e recuperação da perda de controle em voo para pilotos que atuam na maioria das operações de táxi aéreo, voos fretados e empresas de propriedade compartilhada de aeronaves.

Além disso, o órgão reiterou recomendações anteriores para ampliar o uso de despachantes certificados em operadores regidos pelo regulamento Part 135, expandir programas de monitoramento de dados de voo, exigir manifestos de carga mais abrangentes e adotar gravadores de voo mais resistentes a impactos em determinadas aeronaves. O relatório final está disponível neste link.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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