IATA discute com o mercado a transformação do sargaço do Caribe em combustível sustentável de aviação (SAF)

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Todos os anos, os países do Caribe enfrentam um desafio ambiental que impacta suas praias, turismo, ecossistemas costeiros e gera altos custos de limpeza: o sargaço. No entanto, e se essa biomassa abundante fosse vista não apenas como um problema, mas como um recurso valioso?

Essa questão foi o foco de uma recente discussão promovida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), reunindo representantes dos setores de aviação, energia, turismo, governos, finanças e academia para explorar o potencial do sargaço como matéria-prima para produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) na região.

O SAF é a principal ferramenta da indústria aérea para redução de emissões de carbono a curto, médio e longo prazo. Diferente de outras soluções que demandam anos para implantação em larga escala, o SAF é um combustível “drop-in”, compatível com aeronaves e infraestrutura existentes, promovendo reduções significativas nas emissões ao longo do ciclo de vida. À medida que a demanda global cresce, regiões que desenvolverem matérias-primas sustentáveis e rotas produtivas viáveis terão vantagem competitiva.

No Caribe, a oportunidade vai além da aviação. A região depende fortemente da conectividade aérea, que impulsiona turismo, comércio, investimentos, acesso à saúde e laços familiares, especialmente entre ilhas.

Ao mesmo tempo, importa grande parte de seu combustível, ficando vulnerável a choques globais e volatilidade de preços. Desenvolver capacidade local para produção de SAF, mesmo que moderada, pode diversificar a matriz energética e apoiar as metas de sustentabilidade do setor aéreo.

O uso do sargaço na cadeia de produção de SAF é uma possibilidade promissora. Por anos, esforços concentraram-se em mitigar os impactos ambientais do sargaço; hoje, cresce o interesse em transformar essa biomassa em insumo valioso para combustíveis renováveis. Essa transformação requer tecnologias inovadoras, como as desenvolvidas pela indústria, que ampliam o portfólio de matérias-primas para produção de SAF.

Sylvain Verdier, gerente sênior de Estratégia da TOPSOE, destaca que “nenhuma matéria-prima isolada será suficiente para atender a demanda global por SAF e outros combustíveis renováveis. Expandir o leque de matérias sustentáveis, incluindo biomassa marinha, é essencial para acelerar a transição energética dos setores difíceis de descarbonizar, como aviação e transporte marítimo.”

Porém, o desafio não é apenas tecnológico. Um ecossistema de SAF bem-sucedido exige coordenação em toda a cadeia: desde a coleta e logística da matéria-prima, passando pela capacidade de refino, financiamento, certificação e demanda sustentável de mercado. É crucial que as matérias-primas sejam disponíveis, acessíveis, sustentáveis e economicamente viáveis. Investidores precisam de segurança regulatória, produtores de marcos regulatórios e incentivos adequados, e as companhias aéreas necessitam de oferta confiável e competitiva. O sucesso depende da evolução coordenada desses elementos.

Por isso, a colaboração intersetorial e uma abordagem integrada são fundamentais. Mercados falham quando políticas são aplicadas isoladamente ou no momento inadequado, mas prosperam quando há implementação coordenada, considerando o sistema energético e seus efeitos colaterais.

O desenvolvimento do SAF está na interseção entre aviação, energia, desenvolvimento econômico, proteção ambiental e resiliência climática. Governos, reguladores, companhias aéreas, aeroportos, indústria do turismo, instituições financeiras, centros de pesquisa e parceiros de desenvolvimento desempenham papel crucial para criar as condições que impulsionem esse crescimento.

Como ressaltado pela ICAO, a descarbonização da aviação exigirá ações coordenadas e parcerias regionais sólidas. Christopher Barks, diretor regional da ICAO para América do Norte, Central e Caribe, afirma: “Para os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, a aviação é mais que transporte: é motor econômico vital. Avançar na descarbonização na região dependerá de fortalecer a colaboração regional e criar um ambiente que fomente inovação, investimento e implementação, reunindo governos, indústria e parceiros para soluções sustentáveis adaptadas às necessidades locais.”

A realidade é alentadora: o Caribe dispõe de recursos únicos, talento empreendedor e interesse comum em fortalecer sustentabilidade e resiliência. Embora ainda haja muito trabalho para avaliar viabilidade, estabelecer cadeias de suprimento e atrair investimentos, as bases já existem para avanços significativos.

A conversa mudou: não se trata apenas de gerenciar o sargaço, mas de repensar seu potencial. Para isso, é essencial impulsionar a inovação e criar um projeto piloto pioneiro apoiado por governos, que estabeleça um ecossistema sustentável de SAF na região.

Transformar um desafio ambiental em oportunidade econômica não será rápido, mas, se o Caribe alinhar seus atores, fomentar inovação e construir parcerias para avançar o SAF, poderá converter um problema persistente em um catalisador de crescimento sustentável.

Por Annaleen Lord, gerente regional para Caribe da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA)

Carlos Ferreira
Carlos Ferreira
Editor - Estudioso de temas relacionados com a aviação e marketing aeronáutico há duas décadas. Grande vivência internacional e larga experiência em Data Analytics.

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