
A Marinha Americana deverá em breve anunciar a escolha do caça ítalo-russo M346N como seu novo avião de treinamento avançado, após a desistência da sua única concorrente, que é uma grande parceira da Embraer.
Na disputa conhecida como UJTS, sigla para Sistema de Treinamento de Pilotos em Graduação, restavam apenas duas aeronaves: o M346N do consórcio formado pela italiana Leonardo e pela americana Textron, através da subsidiária Beechcraft, e o Freedom Jet da Sierra Nevada Corporation (SNC), com seu design original e próprio.
Estavam na concorrência o jato sul-coreano KAI T-50 Golden Eagle, que seria fabricado em parceria com a gigante Lockheed Martin sob a designação TF-50N, e o americano-sueco T-7A Red Hawk, desenvolvido em conjunto pela Boeing e pela Saab, que já foi escolhido como treinador avançado da Força Aérea Americana (USAF).
Um dos requisitos da concorrência que acabaram sendo retirados foi o de a aeronave ser capaz de realizar pousos em porta-aviões, algo que causou polêmica, já que o jato serve exatamente para treinar aviadores navais do Corpo de Fuzileiros e da Marinha, que saem do atual T-45 Goshawk para caças F/A-18 Hornet e Super Hornet.
O McDonnell Douglas T-45 Goshawk é a versão feita sob-licença do jato britânico BAE Hawk, adaptado para serviço naval, incluindo capacidade de pouso em porta-aviões com gancho para o cabo de arresto, assim como trem de pouso modificado para lançamento por catapultas. No serviço britânico o Hawk será substituído posteriormente, e os concorrentes são praticamente os mesmos da disputa americana, porém com o T-7 tendo uma vantagem inicial.
Segundo reporta com exclusividade o portal Breaking Defense, a SNC desistiu da concorrência após perder o prazo para submissão formal da proposta, encerrado no último dia 30 de outubro. “A SNC não pôde apresentar uma proposta de forma responsável para o UJTS. Nós nos mantemos comprometidos com a formação de aviadores navais e prontos para reaplicar caso o processo seja revisto“, afirmou a empresa em nota oficial enviada ao portal.
A Textron Aviation confirmou que a proposta foi enviada pela Beechcraft, deixando-a como única concorrente, já que a Boeing e a Lockheed Martin desistiram do processo em etapas anteriores. A SNC foi a primeira grande empresa americana a se aliar à Embraer, e hoje as duas operam em conjunto uma linha de montagem dos aviões turboélices A-29 Super Tucano em Jacksonville, na Flórida, visando vendas para aliados do Pentágono.
Já o M346N é a versão adaptada do jato militar M346, que foi desenvolvido em conjunto pela italiana Alenia Aermacchi com a russa Yakovlev na virada do milênio, sendo o primeiro avião militar desenvolvido em conjunto entre uma ex-nação soviética e um membro da OTAN.
Porém, por questões financeiras, o projeto foi separado nos anos 2000 de forma amigável, com a Yakovlev seguindo o desenvolvimento da aeronave sob o codinome Yak-130, enquanto a Alenia continuou o projeto M346. Hoje a parte italiana é do grupo Leonardo.
Como os contratos americanos exigem produção local e parceria com empresas já existentes, a Leonardo fechou um acordo com a Textron para que a aeronave seja produzida na histórica cidade de Wichita, no Kansas, nas instalações da Beechcraft, que já fornece os aviões T-6 Texan II (Pilatus PC-9) e King Air utilizados para treinamento dos aviadores navais, respectivamente na etapa anterior ao voo com o T-45 Goshawk e para adestramento de futuros pilotos da aviação naval de transporte.
A aeronave M346N é equipada com dois motores turbofan Honeywell/ITEC F124, possui velocidade máxima de 590 nós (1.090 km/h), tem teto máximo de 45 mil pés (13 mil metros) e consegue subir a uma razão de até 22 mil pés por minuto.
Hoje o jato M346 já é utilizado pelas forças aéreas do Catar, Grécia, Israel, Itália, Polônia e Turcomenistão, além de já ter sido encomendado pela Áustria, Indonésia e Nigéria.
Uma aeronave italiana de pai russo, mas com primos brasileiros
Curiosamente, o projeto M346 foi o primeiro da Alenia Aermacchi na categoria de jato de treinamento militar após o projeto AMX, feito em colaboração com a brasileira Embraer, que foi uma sequência da parceria para a produção sob licença no Brasil do jato MB-326, designado no país como AT-26 Xavante.
Naturalmente, a aeronave entrou no radar da Força Aérea Brasileira por ser um substituto natural tanto do Xavante como do AMX, já que, além de um avião de treinamento avançado, também é uma aeronave capaz de combate, sendo equipada com mísseis ar-ar IRIS-T (o mesmo usado pela FAB no Gripen), casulos de canhões/metralhadoras, além de poder levar bombas e mísseis para ataques contra alvos em solo ou no mar.
Uma outra coincidência é que, na versão de combate, o M346 usa o radar Grifo, fabricado pela própria Leonardo, que é o que equipa os caças Northrop F-5EM Tiger II da FAB, e este equipamento é uma evolução do radar Pointer do próprio AMX.
Em 2022, o M346 foi testado pelo então comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Júnior, e oferecido para a FAB, que teria gostado do equipamento, mas nunca chegou a abrir formalmente uma licitação ou processo de compra, dadas as restrições orçamentárias e o foco nos projetos prioritários, como o do caça Gripen e o do cargueiro KC-390.