
Mais de 75% dos pilotos europeus afirmaram já ter adormecido involuntariamente na cabine de comando, segundo um novo estudo sobre as condições de trabalho das tripulações no continente. A pesquisa também revelou que três em cada cinco profissionais temem sofrer consequências negativas caso se recusem a prolongar a jornada de trabalho dentro das regras que permitem estender o período de serviço em situações de atraso nos voos.
O levantamento foi encomendado pela Associação Europeia de Pilotos de Linha Aérea (ECA, na sigla em inglês) para avaliar os níveis de fadiga entre os pilotos e verificar se houve mudanças em relação à pesquisa anterior, realizada três anos antes.
Ao todo, cerca de 7.200 pilotos de diferentes países europeus participaram do estudo. Os resultados apontam que praticamente não houve avanços no período, sem melhorias significativas nos procedimentos adotados pelas companhias aéreas para identificar e controlar os riscos associados à fadiga.
O cansaço excessivo é uma preocupação recorrente na aviação, pois pode comprometer o desempenho dos profissionais, reduzir a capacidade de concentração e aumentar a possibilidade de erros. Embora existam regras específicas para limitar as jornadas de trabalho e reduzir esses riscos, a aplicação dessas medidas nem sempre impede que os pilotos atuem em condições inadequadas de descanso.
Na pesquisa mais recente, aproximadamente três quartos dos entrevistados relataram ter experimentado episódios de microssono nas quatro semanas anteriores à participação no levantamento. O fenômeno consiste em breves períodos involuntários de sono e é apontado pelos responsáveis pelo estudo como um sinal de sonolência elevada.
O cenário é ainda mais preocupante entre os profissionais que relataram episódios recorrentes. Cerca de um quarto dos pilotos afirmou ter passado por cinco ou mais episódios de microssono durante o mesmo período.
Os dados também indicam que parte dos profissionais continua trabalhando mesmo quando não se considera em condições adequadas para voar. Apenas 37% dos participantes disseram comunicar que estão incapacitados para o serviço devido à fadiga. Por outro lado, aproximadamente um quarto admitiu não informar o problema e seguir trabalhando normalmente.
Outro fator analisado foi o uso da chamada Commander’s Discretion, mecanismo que permite ao comandante ampliar o período de serviço da tripulação em determinadas circunstâncias.
Em condições normais, os limites de jornada variam conforme o horário de apresentação ao trabalho e a quantidade de voos previstos. Um piloto que começa a trabalhar às 9h e tem duas etapas de voo programadas, por exemplo, pode cumprir um período de serviço de até 13 horas. Já o início da jornada antes das 6h reduz esse limite em duas horas.
Quando ocorre um atraso provocado por circunstâncias imprevistas, o comandante pode autorizar uma extensão excepcional da jornada. O acréscimo permitido pode chegar a duas horas em operações com dois pilotos ou a três horas quando há três profissionais na cabine de comando.
A decisão, porém, deve considerar as condições da tripulação e a capacidade de todos os integrantes de continuar trabalhando com segurança.
Apesar disso, três em cada cinco pilotos ouvidos pela ECA disseram temer consequências negativas caso se recusem a utilizar esse mecanismo para prolongar a jornada. O resultado levanta preocupações sobre a pressão enfrentada pelos profissionais e a possibilidade de que a fadiga deixe de ser comunicada às empresas.
“Quando os pilotos temem consequências para a carreira, a fadiga deixa de ser comunicada, e o risco volta à cabine de comando”, alertou o comandante Coen George, integrante da diretoria da ECA. Ele defendeu que companhias aéreas e autoridades garantam condições para que os profissionais relatem o cansaço sem receio de punições e que o uso da extensão de jornada seja devidamente avaliado.
O estudo também identificou resultados menos favoráveis entre as companhias aéreas de baixo custo. Segundo o relatório, essas empresas aparecem com frequência entre as piores avaliadas em diferentes critérios, incluindo a confiança dos pilotos nos procedimentos de comunicação da fadiga e a utilização mais recorrente da Commander’s Discretion para ampliar os períodos de serviço.
A pesquisa ainda apontou que pilotos de companhias sediadas na Irlanda e em Malta figuraram repetidamente entre os grupos com resultados mais desfavoráveis em diferentes aspectos avaliados.
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