
O governo dos Estados Unidos incluiu a compra de aeronaves comerciais fabricadas no país entre os compromissos previstos em uma proposta de acordo apresentada ao Brasil em outubro de 2025, durante as negociações comerciais realizadas após a imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.
Segundo documento obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, a minuta previa que companhias aéreas brasileiras assumissem compromissos para adquirir aviões produzidos nos Estados Unidos, incluindo aeronaves da Boeing. A quantidade, entretanto, ainda não estava definida no texto e aparecia representada por “[xx]”, indicando que o número deveria ser negociado entre os dois países.
A proposta fazia parte de uma minuta de declaração conjunta apresentada pelos Estados Unidos durante as negociações entre representantes dos governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o entendimento estivesse sendo discutido em nível governamental, a eventual aquisição dos aviões dependeria das companhias aéreas, que são empresas privadas e responsáveis por suas próprias decisões de frota.
Ao contrário de outros países que Trump negociou, em que acordos da Boeing foram incluídos nas negociações e anunciados em visitas oficiais, as companhias aéreas brasileiras não possuem participação do governo federal, e inclusive tem um número elevado de acionistas estrangeiros.
Hoje apenas a GOL e a LATAM voam com jatos Boeing no Brasil para transporte de passageiros, e não existe nenhuma perspectiva de encomenda para aviões no curto prazo, independentemente do fabricante. A única possibilidade real para que houvesse um pedido de uma empresa do Brasil com a Boeing seria para mais jatos 737 MAX pela GOL ou com a LATAM realizando mais encomendas de 787 Dreamliner, ou eventualmente do maior 777X, embora este último tenha a menor possibilidade.
Nenhum destes pedidos, porém, seria muito expressivo para o Brasil, dado que a GOL hoje faz encomendas junto da controladora Abra, e que a LATAM é um grupo com sede no Chile, e que qualquer aumento de frota também exige uma demanda das outras filiais.
As conversas ocorreram em Washington em 16 de outubro de 2025. Naquela data, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, e o secretário de Estado, Marco Rubio, reuniram-se com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Em comunicado oficial divulgado após o encontro, os dois governos confirmaram que discutiram questões comerciais e bilaterais e concordaram em manter negociações em diferentes frentes, mas o texto público não mencionava a compra de aeronaves Boeing.
A negociação ocorreu após o governo Trump elevar as tarifas aplicadas a diversos produtos brasileiros em 2025. Em julho daquele ano, a Casa Branca anunciou uma tarifa adicional de 40% sobre determinadas importações provenientes do Brasil, que, somada à tarifa então existente, levava a cobrança a 50% em parte dos produtos atingidos.
De acordo com a reportagem que revelou a minuta, o documento apresentado pelos Estados Unidos continha 21 tópicos e abrangia diferentes áreas das relações econômicas e comerciais entre os dois países. O compromisso relacionado às aeronaves aparecia entre as condições propostas por Washington.
O conteúdo específico dessa minuta não consta do comunicado público divulgado pelo governo dos Estados Unidos após a reunião de outubro de 2025. Segundo o texto fornecido à reportagem original, o Itamaraty não comentou oficialmente o teor da proposta, enquanto o Departamento de Estado, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos e a Boeing não haviam se manifestado sobre o ponto até a publicação da apuração.
Em outro documento, existia uma menção de retirar barreiras para a venda de jatos executivos no Brasil, porém, na prática, não existe nenhuma diferença, já que toda a linha de jatos leves Phenom da Embraer é fabricada exclusivamente nos EUA, e as aeronaves da Cessna e Gulfstream são vendidas em grande quantidade e sem restrições no Brasil.





