
O combustível sustentável de aviação (SAF) pode reduzir em até 80% as emissões de dióxido de carbono (CO₂) ao longo de seu ciclo de vida, em comparação com o querosene convencional. A estimativa é da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) e considera todas as etapas, desde a obtenção da matéria-prima até o uso do combustível nas aeronaves. Esse potencial faz do SAF uma das alternativas para reduzir o impacto climático do transporte aéreo.
No Brasil, o governo estabeleceu metas para diminuir gradualmente as emissões de gases de efeito estufa da aviação doméstica. A iniciativa integra o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), criado pela Lei do Combustível do Futuro, de 2024, e regulamentado em agosto de 2026, com a participação dos ministérios de Portos e Aeroportos e de Minas e Energia.
A partir de janeiro de 2027, os operadores aéreos sujeitos às regras deverão reduzir em pelo menos 1% as emissões em relação ao volume que seria gerado com o uso exclusivo de combustíveis fósseis. O percentual aumentará progressivamente até atingir 10% em 2037.
As metas brasileiras não devem ser confundidas com o potencial de redução de emissões do SAF. Enquanto o índice de até 80% diz respeito ao desempenho ambiental do combustível ao longo de seu ciclo de vida, os percentuais previstos no programa determinam a redução que as empresas aéreas deverão alcançar em suas operações domésticas.
A regulamentação contempla diferentes tecnologias e matérias-primas para a produção de SAF, além de mecanismos complementares que permitem cumprir parte das metas, respeitados os limites estabelecidos. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) será responsável pelos critérios de certificação e rastreabilidade, enquanto a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) fiscalizará o cumprimento das obrigações pelas empresas aéreas.
Segundo o secretário nacional de Aviação Civil do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), Daniel Longo, a ampliação do uso de SAF é uma das alternativas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis na aviação. Ele ressalta, porém, que o avanço dessa tecnologia também depende da capacidade de produção e da criação de condições para sua incorporação gradual às operações.
“O combustível sustentável de aviação representa um avanço importante para reduzir o impacto ambiental do transporte aéreo. O desafio é ampliar sua utilização de forma gradual, garantindo que a redução das emissões venha acompanhada de segurança operacional e condições para o desenvolvimento do setor. O Brasil tem potencial para avançar nessa agenda, aproveitando sua experiência na produção de biocombustíveis”, afirma.
No Brasil, a Petrobras já produz SAF na Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro. Em junho de 2026, a estatal anunciou a produção e a comercialização de 3,8 mil metros cúbicos do combustível, obtidos a partir de óleo de soja certificado. A empresa também realizou testes de produção na Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos (SP).
Como o SAF reduz as emissões
Diferentemente do querosene convencional, derivado do petróleo, o SAF pode ser produzido a partir de óleos vegetais, gorduras animais, resíduos agrícolas, óleo de cozinha usado e outras matérias-primas. Esses materiais passam por processos industriais específicos até se transformarem em combustível adequado para a aviação.
O benefício climático depende, entre outros fatores, da origem das matérias-primas e da tecnologia utilizada na produção. No caso dos combustíveis derivados de biomassa, parte do carbono liberado durante a queima pode ter sido absorvida da atmosfera pelas plantas durante seu crescimento. Isso não elimina as emissões, mas pode reduzir o balanço total de gases de efeito estufa em comparação com os combustíveis fósseis.
Para calcular essa redução, é necessário avaliar todo o ciclo de vida do combustível, incluindo a obtenção e o transporte das matérias-primas, o processamento industrial, a distribuição e a utilização nas aeronaves. O cálculo também considera fatores como o consumo de energia durante a produção e possíveis mudanças no uso da terra.
Outra característica do SAF é a possibilidade de utilização nas aeronaves e na infraestrutura aeroportuária existentes, desde que o combustível atenda aos requisitos de certificação e às especificações técnicas aplicáveis, incluindo os limites autorizados de mistura. Dessa forma, sua adoção pode contribuir para reduzir as emissões sem exigir a substituição imediata da frota.
Produção nacional
A experiência brasileira na produção de biocombustíveis e a diversidade de matérias-primas disponíveis abrem oportunidades para desenvolver a cadeia de produção de SAF. A expansão do mercado, no entanto, depende de critérios de sustentabilidade e de mecanismos que permitam comprovar os benefícios ambientais de cada combustível.
Embora não elimine as emissões da aviação, o SAF pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis e contribuir para a diminuição do impacto climático do setor. Seu uso, combinado com aeronaves mais eficientes, melhorias nas operações de voo e avanços na gestão do tráfego aéreo, integra as alternativas para reduzir as emissões nos próximos anos.
Informações do Ministério de Portos e Aeroportos
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