
As companhias aéreas devem gastar cerca de US$ 4,3 bilhões em combustível sustentável de aviação (SAF) este ano, valor que cobre apenas 0,8% do consumo total de combustível do setor. Um estudo realizado por IATA, Airbus e Accenture aponta que empresas podem ser a peça que falta para ampliar o uso de SAF e acelerar a descarbonização da aviação.
Segundo o relatório divulgado em Bruxelas, a compra de certificados ambientais de SAF (SAF EAc) por empresas pode sustentar entre 1,0 e 1,9 milhão de toneladas de SAF em 2030, quase seis vezes mais que o volume estimado para 2024.
Esse número representaria cerca de 80% de toda a produção global de combustível sustentável prevista para este ano. Para 2026, a IATA estima uma produção global de 2,4 milhões de toneladas, ainda apenas 0,8% do total usado pelas companhias aéreas, e com custo de duas a três vezes maior que o convencional.

Hoje, boa parte desse valor extra é arcado exclusivamente pelas empresas aéreas. O estudo propõe que essa diferença seja compartilhada com as empresas, por meio da compra de certificados que as ajudem a compensar emissões de escopo 3, aquelas provenientes de viagens corporativas e transporte aéreo de cargas. Para que isso funcione, é essencial um sistema de “book-and-claim” robusto, onde a empresa possa reivindicar a redução das emissões independentemente do local onde o SAF é efetivamente consumido.
Os certificados ambientais do SAF são comercializados entre US$ 150 e US$ 500 por tonelada de CO2e evitada. Segundo o levantamento, as empresas estão dispostas a pagar em torno de US$ 300, mas apenas cerca de 15% delas já adquirem certificados.
A maioria aguarda uma queda de preços, regras contábeis mais claras e um processo de compra menos burocrático. Atualmente, cerca de 53% das vendas de certificados são feitas para negócios que buscam compensar emissões ligadas a viagens ou transporte de cargas.
O estudo destaca três prioridades para aumentar a participação de empresas: regras contábeis claras que deem segurança no reconhecimento das reduções, sistemas de rastreabilidade transparentes para evitar dupla contagem e mecanismos de compra mais simples, com mais transparência de preço e contratos mais curtos e flexíveis.
Parte dessa infraestrutura já existe, como o CADO SAF Registry, operado desde 2025, que reúne mais de 140 organizações na cadeia de valor e permite registro, transferência e reivindicação dos atributos ambientais do SAF.
Para especialistas, como Marie Owens Thomsen (IATA) e Julien Manhes (Airbus), as companhias aéreas não suportarão sozinhas a expansão do uso do SAF. A demanda corporativa só será convertida em compromissos concretos se houver clareza e confiança no processo.
Ainda assim, eles ressaltam que a efetiva transição do setor para energias limpas dependerá também de incentivos governamentais e ampliação significativa da capacidade produtiva.





