
A Airbus deu detalhes do histórico voo do A350-1000ULR, que fez a mais longa viagem sem escalas já realizada por um avião comercial. A aeronave percorreu 12.460 milhas náuticas (cerca de 23.076 km) em um único trecho entre Melbourne, na Austrália, e Toulouse, na França, completando a viagem em 24 horas e 24 minutos.
O feito ocorreu com o primeiro avião de testes da versão A350-1000ULR, de número de série 707 e matrícula F-WULR, que decolou de Toulouse em 23 de julho rumo à Austrália e retornou alguns dias depois à França. O voo de volta estabeleceu um novo recorde e um marco para a fabricante ao superar qualquer operação anterior realizada por uma aeronave comercial.
Segundo a Airbus, a missão faz parte da campanha de desenvolvimento do A350-1000ULR e tem como objetivo demonstrar que a aeronave é capaz de cumprir voos com tempo calço à calço (block time) de até 23 horas. Esse período considera desde a liberação do freio de estacionamento antes da decolagem até o acionamento do freio após a chegada ao portão, incluindo táxi, possíveis esperas e desvios, oferecendo margem operacional para as futuras rotas do Projeto Sunrise, da Qantas, previstas para ter aproximadamente 21 horas e 40 minutos de duração.

Equipado com dois motores Rolls-Royce Trent XWB-97, o A350-1000ULR incorpora um tanque central traseiro adicional (Rear Centre Tank – RCT), com capacidade para 20.900 litros de combustível, instalado no porão de cargas onde nos jatos normais A350 ficam parte das bagagens. O sistema amplia significativamente a autonomia da aeronave, permitindo voos ultralongos com alcance próximo de 10.000 milhas náuticas (18.520 quilômetros).
Além de comprovar o desempenho operacional da aeronave, os voos tiveram como foco a validação dos sistemas de gerenciamento de combustível e da climatização da cabine. Durante a missão, os engenheiros realizaram medições detalhadas para avaliar o conforto térmico ao longo de mais de 20 horas de operação contínua.
De acordo com o piloto de testes da Airbus, Xavier Pepin, grande parte das funcionalidades do tanque adicional já havia sido validada anteriormente, mas ainda restavam alguns pontos específicos a serem verificados em voos de longa duração: “Enchemos completamente esse tanque para validar todos os parâmetros necessários durante a missão, tornando esse, juntamente com o conforto da cabine, o principal foco dos nossos testes”, explicou.
No primeiro trecho da viagem, com aproximadamente 20 horas de duração, a equipe também aproveitou o longo período de voo para estabilizar diferentes configurações de temperatura da cabine, permitindo medições mais precisas. O segundo trecho foi utilizado para concluir verificações pendentes e repetir testes considerados necessários.
Outro destaque da campanha foi a avaliação do novo compartimento duplo de descanso da tripulação técnica (Flight Crew Rest Compartment – FCRC), desenvolvido especificamente para as missões ultralongas do A350-1000ULR. O módulo possui duas áreas independentes, cada uma com entrada própria, permitindo que os pilotos entrem ou saiam do local de descanso sem interromper o repouso do colega.
Entretanto, durante esse voo de testes, o compartimento permaneceu ocupado por equipamentos destinados à medição da eficiência do sistema de ventilação. Por esse motivo, a tripulação utilizou o compartimento de descanso dos comissários, localizado na parte superior traseira da cabine e equipado com oito beliches.
Missão reuniu pilotos da Airbus e da Qantas

A etapa entre Toulouse e Melbourne contou com quatro pilotos da Airbus, liderados por Vincent Sibelle, responsável também pela coordenação geral da missão. A equipe foi composta ainda pelos pilotos Xavier Pepin, Josef Bayoud e Chetan Takalkar, além de dois engenheiros de testes de voo no cockpit e três engenheiros responsáveis pelo monitoramento dos ensaios realizados na cabine.
No retorno para Toulouse, Xavier Pepin assumiu o comando da aeronave. A equipe passou a contar também com dois pilotos convidados da Qantas, Andrew Coull e David Summergreene, ambos já habilitados no A350, mas realizando seu primeiro contato operacional com a variante ULR.
Para completar a missão, o voo de Melbourne seguiu uma rota diferente da convencional, cruzando o Oceano Pacífico em direção a Los Angeles, sobrevoando Estados Unidos e Canadá antes de atravessar o Atlântico ao sul da Groenlândia, passando pelo Reino Unido e retornando ao sul da França.
Segundo a Airbus, essa trajetória foi escolhida para evitar possíveis conflitos com rotas transatlânticas (NATs) utilizadas pelas companhias aéreas e minimizar eventuais problemas relacionados ao gerenciamento do tráfego aéreo.
Escalas de descanso garantiram segurança durante as mais de 24 horas de voo

Para enfrentar um voo de duração recorde, a Airbus adotou um rígido esquema de gerenciamento de fadiga. Os pilotos trabalharam em turnos de quatro horas, totalizando seis turnos, com revezamento a cada duas horas, garantindo um período de duas horas de sobreposição entre as equipes para uma transferência completa de informações e manutenção da consciência situacional.
Durante a etapa de retorno, pelo menos um piloto de testes da Airbus permaneceu sempre nos comandos sempre que um dos pilotos da Qantas ocupava o outro assento do cockpit, garantindo que a fabricante mantivesse a responsabilidade operacional pela missão.
Segundo Xavier Pepin, a experiência também serviu para compartilhar conhecimentos com os pilotos da companhia australiana, que em breve utilizará o A350-1000ULR nas operações do Projeto Sunrise: “Nós realmente gostamos da troca de conhecimento e de responder às perguntas deles durante nossa viagem ultralonga”, concluiu o piloto.





