Falha de GPS nos jatos da Embraer foi provavelmente causada por teste em satélite militar americano

Imagem: AEROIN – Reprodução Proibida

EXCLUSIVO

A falha que deixou boa parte da frota de jatos Embraer E2 no chão na última terça-feira, 22 de setembro, está possivelmente relacionada a um satélite militar americano.

O caso, que foi mostrado com exclusividade e em primeira mão aqui no AEROIN, envolveu dezenas de jatos Embraer E195-E2, inicialmente da Azul Linhas Aéreas, que não conseguiram decolar por falha dupla nos dois receptores de GPS da aeronave.

Inicialmente, a própria Embraer apontou que o problema estava sendo tratado com a Honeywell, que fabrica os aviônicos, mas ainda não estava claro o que tinha acontecido para causar a falha repentina, e não em todas as aeronaves, visto que a Scoot Airlines, de Cingapura, e a Airlink, da África do Sul, não tiveram problemas.

Nos últimos dias, a equipe do AEROIN entrou em contato com vários operadores e membros da indústria e conseguiu obter dados mais específicos. Além dos aviões E2 da Azul, alguns jatos do mesmo modelo da Porter Airlines foram igualmente afetados, mas também os turboélices Pilatus PC-12NGX e o jatinho leve PC-24, da mesma fabricante suíça. No caso destas aeronaves executivas, a falha ocorreu comprovadamente em operadores na América do Norte e Europa.

Outros relatos apontam falha em aeronaves Gulfstream G550, que, assim como os Pilatus, possuem a aviônica Honeywell, em especial os módulos em comum com o E2. Outros aviões afetados foram os franceses Dassault Falcon 7X, além dos predecessores Falcon 900 e 2000 equipados com a suíte Dassault EASy.

Numa análise mais aprofundada realizada por técnicos, foi apontada uma falha nos módulos VIDL-G e KGS-200, que são, de fato, os equipamentos que recebem o sinal das antenas de GPS, interpretam-no e o repassam para o computador de voo e o restante dos aviônicos. Estes módulos são fabricados pela BendixKing, uma subsidiária da Honeywell, e equipam todas as variantes das aeronaves listadas anteriormente.

A falha estaria relacionada a um sinal emitido pelo satélite NTS-3, fabricado pela L3Harris e lançado pela Força Espacial Americana (USSF) em coordenação com a Força Aérea Americana (USAF). Entramos em contato inicialmente com a L3Harris, que informou, em nota oficial, que não irá comentar o assunto, direcionando as dúvidas para os militares.

Através do Pentágono entramos em contato com as duas forças aeroespaciais americanas, e enquanto a USSF ainda não nos respondeu, a USAF nos deu detalhes exclusivos sobre o ocorrido até o momento, apesar de não entrar em dados específicos por ser ainda uma situação em investigação.

Segundo o Laboratório de Pesquisa da USAF, o AFRL, uma análise preliminar indica que “alguns receptores reagiram a parâmetros inesperados durante um teste de rotina e pré-aprovado do satélite NTS-3“. Este satélite foi lançado no Cabo Canaveral no início do mês passado e já estava operacional antes do episódio de falha.

Ele envia sinais de GPS tanto para uso uso aeroespacial e terrestre, porém restrito inicialmente para aplicações militares. Algumas novas tecnologias estão sendo testadas nele, inclusive visando ganho de precisão e de área de cobertura.

O AFRL nos informou que está coordenando com a Agência de Aviação Federal dos EUA, a FAA, para saber quais aeronaves foram afetadas, quando e por qual motivo específico. Os militares destacaram que as transmissões experimentais serão suspensas e só serão retomadas quando camadas extras de segurança forem implementadas e testes adicionais forem realizados.

No caso, o teste seria voltado para uma aplicação militar e, antes dele, foram adotadas “medidas destinadas a evitar interferência do NTS-3 na aviação civil, incluindo o uso de um sinal de teste autorizado que foi publicamente identificado como experimental e não destinado ao uso operacional por receptores GPS civis“, afirmou a USAF.

Pelas informações preliminares de operadores tanto de aeronaves da Embraer como da Pilatus relataram ao AEROIN, este sinal acabou sendo recebido pelos receptores instalados nas aeronaves afetadas, que entenderam ser um sinal desconhecido, poderia estar “sujo” ou “ruim” e que deveria ser ignorado por não ser comprovadamente “seguro”.

Com isso, o sinal foi descartado pelo próprio sistema de bordo, que é uma camada de segurança para evitar que a aeronave interprete sinais ruins e/ou embaralhados (jamming) e navegue a partir desta informação errônea e/ou imprecisa. A partir deste descarte de sinal, a falha surgiu no painel das aeronaves, mas ainda não está esclarecido o motivo de não ter ocorrido uma falha em voo, somente em solo antes da aeronave iniciar a decolagem.

Por prevenção, a USAF suspendeu todos os testes com o NTS-3 até garantir que o problema não se repita. Até o momento, a Honeywell não respondeu aos nossos contatos.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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