Investigação revela que pilotos da American abortaram decolagem antes de quase colisão com jato da Delta em Boston

Um relatório preliminar divulgado pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos Estados Unidos (NTSB) revelou novos detalhes sobre a incursão em pista registrada no Aeroporto Internacional de Boston, que obrigou um Airbus A319 da Delta Air Lines a arremeter para evitar um possível conflito com um Boeing 737-800 da American Airlines.

O incidente ocorreu na manhã de 20 de junho e envolveu o voo DL2351, da Delta Air Lines, e o voo AA3161, da American Airlines. Apesar da gravidade da situação, não houve feridos entre os 318 ocupantes das duas aeronaves, nem danos aos aviões.

Segundo o relatório, às 11h32 (horário local), o controlador autorizou o Boeing 737 da American Airlines a alinhar e aguardar na pista 27, enquanto informou à tripulação do Airbus A319 da Delta que havia tráfego aguardando naquela pista antes de autorizá-la a pousar na pista 33L.

Pouco depois, um turboélice Pilatus PC-12 da Tradewind Aviation pousou na pista 33L e iniciou o táxi para deixar a área de cruzamento entre as duas pistas. Às 11h33, o Boeing da American recebeu autorização para decolar e confirmou o procedimento.

Entretanto, segundos após iniciar a aceleração, a aeronave interrompeu a corrida de decolagem em razão de um alerta de configuração inadequada de decolagem. Após verificar os sistemas e concluir que o aviso provavelmente era incorreto, a tripulação reiniciou a decolagem. Nesse momento, o Airbus A319 da Delta já estava em aproximação final para a pista 33L.

De acordo com a investigação, quando o Boeing retomou a aceleração, o comandante do Airbus observou que a aeronave da American não conseguiria deixar a interseção das pistas a tempo e ordenou imediatamente que o copiloto executasse uma arremetida. O procedimento foi iniciado quando o A319 estava a aproximadamente 500 pés (152 metros) do solo. A estimativa preliminar do NTSB aponta que a menor distância entre as duas aeronaves foi de cerca de 670 pés (204 metros).

O relatório informa ainda que o Aeroporto Logan dispõe do sistema ASDE-X, que utiliza radares de superfície para prever conflitos entre aeronaves e emitir alertas visuais e sonoros aos controladores. O sistema detectou o conflito entre os voos da Delta e da American e gerou os alertas correspondentes.

Além disso, o aeroporto também possui o sistema automatizado de luzes de status de pista (Runway Status Lights – RWSL), que acende luzes vermelhas na pista quando identifica uma situação considerada insegura para a decolagem. Segundo análise preliminar da Administração Federal de Aviação (FAA), as luzes vermelhas da pista 27 estavam acesas quando o Boeing alinhou para decolagem e voltaram a acender quando o Airbus da Delta já estava em aproximação final.

Apesar disso, os pilotos da American Airlines afirmaram que não visualizaram nenhuma luz vermelha durante a decolagem.

As entrevistas realizadas pelo NTSB mostraram que o comandante do Airbus da Delta acreditava inicialmente que o Boeing da American iniciaria a decolagem imediatamente após receber autorização da torre e cruzaria a interseção antes da chegada do A319. No entanto, ao perceber que o 737 havia parado após avançar apenas alguns metros, passou a monitorar simultaneamente a movimentação do Pilatus e do Boeing.

Quando o Boeing voltou a acelerar, o comandante determinou a arremetida. O copiloto relatou que não conseguiu enxergar o avião da American durante a manobra porque a estrutura da janela da cabine bloqueava sua visão naquele momento. A tripulação também informou que não recebeu qualquer alerta do sistema anticolisão TCAS durante o incidente.

Já a tripulação da American explicou que interrompeu inicialmente a corrida de decolagem após receber um alerta de configuração de decolagem logo depois de acionar o modo TOGA. Após confirmar que flapes, compensador, freio de estacionamento e speedbrakes estavam corretamente configurados, concluiu que o aviso era falso e decidiu prosseguir com a decolagem.

Ao se aproximar da interseção das pistas, os pilotos observaram o Airbus iniciando a arremetida e avaliaram que não haveria mais risco de conflito, optando por continuar a decolagem.

O controlador responsável pelas decolagens declarou que o movimento no aeroporto era moderado a baixo e que não havia distrações relevantes na torre de controle, e que acreditava ter visto o Boeing iniciar normalmente a corrida de decolagem e, por isso, voltou sua atenção para o Pilatus, que ainda precisava liberar completamente a pista 33L antes da chegada do Airbus.

Quando o sistema ASDE-X emitiu o alerta, o controlador disse ter ficado momentaneamente confuso, pois acreditava que o conflito ainda envolvia apenas o Pilatus. Outro controlador relatou que percebeu a incursão apenas quando ouviu a tripulação da Delta informar que estava arremetendo.

O supervisor da torre afirmou que investigava outro evento operacional ocorrido anteriormente quando observou o Airbus elevar o nariz para iniciar a arremetida, pouco antes de o sistema de alerta ser acionado.

O NTSB informou que os gravadores de voz das duas aeronaves não puderam ser utilizados na investigação porque seus áudios foram sobrescritos antes que os equipamentos fossem recuperados e analisados pelso órgão. Em contrapartida, os gravadores de dados de voo ainda continham as informações do incidente e seguem sendo analisados pelos investigadores.

A investigação permanece em andamento e o relatório divulgado é preliminar, não apresentando conclusões sobre as causas do incidente. O documento na íntegra pode ser acessado clicando aqui.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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