Terapeuta de pseudociência ofende racialmente piloto da LATAM, chamando-o de “negro racista”, mas alega ser vítima

Uma terapeuta de pseudociência publicou vídeos nas redes sociais nos quais faz ofensas de cunho racial e ataques pessoais contra um comandante da LATAM após ser retirada de um voo da companhia. Tânia Rocha questionou a decisão do comandante, autoridade máxima dentro de uma aeronave, e afirmou que a retirada da aeronave teria relação com a cor da pele dele.

O episódio ocorreu no fim da última semana, durante um voo entre Florianópolis e Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundo o relato da escritora, o conflito começou por causa do transporte de seu cachorro na cabine da aeronave. O caso foi revelado pela Folha de São Paulo, mídia parceira do AEROIN.

Tânia afirmou que havia recebido previamente da companhia as dimensões permitidas para a caixa de transporte do animal. Já dentro do avião, porém, parte do recipiente teria ultrapassado o espaço disponível sob o assento. Diante da situação, o comandante considerou que havia um risco e determinou que a passageira deixasse a aeronave.

Após o episódio, Tânia publicou vídeos nos stories de seu perfil no Instagram nos quais chamou o comandante de “negro racista” e utilizou outros termos ofensivos para se referir a ele. Em uma das gravações, ela questionou se a situação estaria relacionada à diferença de cor da pele entre os dois.

Em outra gravação ela se refere aos tripulantes como “retardado desse negro” e “negro racista de merda“, cometendo exatamente o crime de racismo, que segundo a lei federal 7.716 de 1989 é tipificado a ação criminosa como “injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional.”

As ofensas não pararam, e em outro vídeo, a escritora voltou a associar a decisão do comandante ao racismo e fez comentários generalizantes e de cunho racial sobre pessoas negras. As declarações foram publicadas após o desembarque e repercutiram nas redes sociais, sendo apagadas por Tânia mas republicadas por outras pessoas.

Procurada pela Folha, Tânia não quis conceder entrevista. Por meio de sua assistente, informou que está na Itália, onde cumpre uma agenda profissional, e afirmou estar “ainda chocada” com o que classificou como a “agressividade do piloto da LATAM”.

A companhia aérea declarou que “repudia veementemente toda prática discriminatória, incluindo crimes de racismo”. A LATAM também afirmou estar à disposição das autoridades para colaborar com a apuração do caso e disse que dará “total assistência” ao comandante, que, segundo a empresa, foi “gravemente ofendido em sua honra, no exercício de suas funções”.

A empresa explicou ainda que as regras para o transporte de animais na cabine seguem as regulamentações aplicáveis ao setor e têm como objetivo preservar o bem-estar e a saúde dos pets, além de garantir a segurança da operação.

De acordo com as regras informadas pela companhia, animais transportados na cabine precisam permanecer durante todo o voo dentro de uma bolsa ou caixa de transporte. Para recipientes rígidos, são permitidas dimensões máximas de 36 centímetros de comprimento, 33 centímetros de largura e 19 centímetros de altura. No caso de bolsas flexíveis, os limites são de 40 centímetros de comprimento, 28 centímetros de largura e 25 centímetros de altura.

Também é necessário que o animal consiga permanecer em pé dentro do recipiente sem encostar no teto, além de conseguir se movimentar e girar naturalmente sem tocar nas paredes. Quando as exigências relacionadas às dimensões ou às características do recipiente não são atendidas, o animal não pode ser transportado na cabine.

Tânia Rocha possui mais de 200 mil seguidores no Instagram e se apresenta como terapeuta especializada em constelações familiares, com foco em traumas geracionais e hereditários. Ela também é autora de quatro livros e oferece cursos pela internet.

A “terapia de constelação familiar” não é baseada em nenhuma evidência científica e é classificada como uma pseudociência por diversos especialistas, incluindo a Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidências, enquanto o Conselho Federal de Psicologia (CFP) classifica a “terapia” como uma prática “incompatível com o exercício profissional da Psicologia“, alertando que apesar de ser algo oferecido pelo SUS, não tem eficácia comprovada e “viola ainda as diretrizes normativas sobre gênero e sexualidade consolidadas pelo Conselho Federal de Psicologia“.

A partir do próximo mês de setembro, atitudes criminosas como as feitas pela Tânia Rocha serão passíveis de punições mais graves, como banimento de todos os voos comerciais regulares no Brasil por dois anos, com a punição valendo em qualquer companhia áerea, independente de onde o crime foi cometido.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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