Antigo dono do Vasco e controlador de companhias aéreas declara Recuperação Judicial

Divulgação – Flair Airlines

A empresa de investimentos alternativos 777 Partners, conhecida por sua ambiciosa e turbulenta incursão no futebol europeu e sul-americano, assim como por sua participação em companhias aéreas de baixo custo, apresentou neste domingo um pedido de proteção sob o Chapter 11 da lei de falências dos Estados Unidos perante o tribunal de Dallas, no Texas. A medida busca uma liquidação ordenada de seus ativos remanescentes, semanas depois de seus credores tentarem forçar sua dissolução.

Em 16 de julho, fundos vinculados à Vida (Vida Longevity Fund e entidades relacionadas) apresentaram um pedido involuntário de Capítulo 7 contra a 777 Partners LLC no Tribunal de Falências do Sul da Flórida. Os credores reivindicavam cerca de US$ 26 milhões decorrentes de uma decisão judicial relacionada a um empréstimo anterior. A empresa, que já estava em um processo de desinvestimento supervisionado por assessores independentes desde 2024, acelerou então seu plano de reestruturação e optou pelo Chapter 11 voluntário para controlar o processo de liquidação, em vez de enfrentar uma falência forçada.

Segundo reportagens da Bloomberg e do portal parceiro Aviacionline, a companhia e entidades vinculadas, incluindo a 600 Partners, enfrentam uma dívida que, em alguns documentos, supera US$ 2 bilhões. O objetivo atual é concluir a venda ou transferência do que resta de seu portfólio sob supervisão judicial.

Dos “acordos estruturados” ao futebol e à aviação

Imagem: FlyBonza

Fundada em 2015, em Miami, por Josh Wander e Steven Pasko, a partir da aquisição da SuttonPark Capital, a 777 Partners começou especializada em finanças alternativas, principalmente na compra de “structured settlements” (anuidades decorrentes de indenizações judiciais em troca de um pagamento único). Em poucos anos, expandiu seu alcance para seguros, resseguros (por meio da 777 Re, nas Bermudas), financiamento de litígios, mídia e, de forma mais visível, esporte e aviação.

A empresa construiu um modelo de propriedade multiclubes de futebol. Adquiriu ou passou a deter participações relevantes no Genoa CFC (Itália), Vasco da Gama, Standard Liège (Bélgica), Red Star FC (França), Hertha BSC (Alemanha) e uma participação minoritária no espanhol Sevilla. Sua tentativa mais ambiciosa, a compra do Everton, da Premier League inglesa, acordada em 2023, fracassou em 2024 em meio a problemas de financiamento, escrutínio regulatório e crescentes dúvidas sobre a solidez da companhia.

Na aviação, a 777 Partners controlou ou teve participação na Flair Airlines (Canadá) e foi proprietária da Bonza, a companhia aérea australiana de baixo custo que entrou em administração voluntária em abril de 2024 e acabou liquidada. Problemas de pagamento de leasing de aeronaves, apreensões de aviões e falta de capital suficiente marcaram a deterioração desses ativos.

Acusações de fraude e o papel da A-CAP

O declínio da 777 Partners se acelerou após a renúncia de seus cofundadores aos cargos de sócios-gerentes, em maio de 2024. Em outubro de 2025, promotores federais de Nova York apresentaram acusações criminais contra Josh Wander por um esquema de fraude que, segundo a acusação, teria lesado credores e investidores em cerca de US$ 500 milhões. As alegações incluem declarações financeiras falsas, dupla utilização de garantias e outras irregularidades. A SEC apresentou ações civis paralelas. Wander se declarou inocente e aguarda julgamento.

Um ator importante em toda essa história foi a Advantage Capital Holdings (A-CAP), que atuou como importante credora e fornecedora de capital por meio de acordos de resseguro. Quando a situação se deteriorou, a A-CAP assumiu o controle de vários ativos esportivos e procedeu à sua venda ou transferência.

Um fim anunciado

Desde 2024, a 777 Partners vendeu ou perdeu a maior parte de seus clubes de futebol, enfrentou a falência de sua subsidiária britânica, apreensões de aeronaves e múltiplos processos judiciais por dívidas não pagas. O pedido de Chapter 11 apresentado em 9 de agosto, no Texas, representa o último capítulo de uma trajetória que passou de um crescimento vertiginoso a um colapso marcado por acusações de fraude, problemas de liquidez e pela incapacidade de sustentar suas apostas no esporte e na aviação comercial.

Para o setor aéreo, o caso da Bonza e as dificuldades da Flair permanecem como exemplos dos riscos de modelos de financiamento opacos em companhias aéreas de baixo custo. No futebol, a 777 Partners tornou-se um dos casos mais notórios de propriedade multiclubes que terminou em fracasso financeiro. A liquidação ordenada sob o Chapter 11 permitirá, ao menos, uma resolução mais estruturada dos ativos residuais e das reivindicações dos credores.

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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