Iberia vê o Brasil como centro da disputa por passageiros após a compra da TAP pela Lufthansa

EXCLUSIVO – A Iberia vê que o Brasil permanecerá o principal campo de disputa com a TAP após a compra pelo Grupo Lufthansa, sem grandes mudanças no restante da América Latina.

Hoje a companhia aérea europeia com maior presença na América Latina, a Iberia voa diretamente para 20 cidades no continente, principalmente em países que foram colonizados pela Espanha. Nas suas metas no chamado “Plan de Vuelo 2030”, está programada a chegada de mais aeronaves para voos longos, visando exatamente atender este público, além de cidades na América anglo-saxônica.

Como parte do Grupo IAG, também composto pela Aer Lingus e pela British Airways, a Iberia estava disputando com a Air France-KLM e com o Grupo Lufthansa os 44,9% que seriam reprivatizados da TAP Air Portugal.

Porém, pouco antes da fase final da disputa, o Grupo IAG desistiu do certame, deixando apenas o conglomerado alemão e o franco-holandês na concorrência pela companhia aérea de bandeira de Portugal, sendo que este primeiro acabou saindo vitorioso por ter uma oferta monetária superior.

Um dos motivos citados na época para a desistência da IAG seriam as medidas compensatórias (os chamados remédios) que a União Europeia deveria estabelecer para evitar a concentração excessiva de mercado, dado que a Iberia e a TAP são responsáveis por grande maioria do tráfego na península ibérica desde que a aviação comercial existe.

Porém, este não foi o principal motivo, como revelou o diretor de estratégia, transformação e sustentabilidade da Iberia, Diego Fernandez, em entrevista ao AEROIN em Madri: “A questão não eram os remédios, e eu falo aqui como algo do grupo, já que a decisão ou não pelo negócio veio da IAG, é que não se tinham as condições para ter o controle efetivo que o grupo considerava necessário para desenvolver o negócio como se esperava“.

A expectativa da IAG era iniciar a privatização já tendo a maioria do controle da TAP, o que foi um dos motivos de cisão do empresário brasileiro David Neeleman com o governo português na privatização anterior da companhia aérea lusa. Nos bastidores, se comentava muito que as mudanças propostas pela administração brasileira exercida através das ações compradas pela Azul Linhas Aéreas eram barradas pela parte estatal, criando uma divisão que se agravou com o início da pandemia.

Existe a expectativa de que a Lufthansa avance na sua participação e que no futuro exerça o controle total da companhia, ainda que não seja tão rápido como foi a tomada de controle total da ITA Airways, sucessora da Alitalia.

No que tange à mudança na concorrência, Fernandez destacou que é natural que a Iberia se adapte e reaja às medidas que a TAP tomará agora como parte do Grupo Lufthansa, mas que o tabuleiro se movimentará em torno do mercado brasileiro principalmente: “Competiremos sobretudo no Brasil, na questão de terem mais presença lá, mas no resto dos mercados não altera substancialmente a situação“.

Hoje a TAP atende 16 cidades na América Latina, porém, se excluir as capitais brasileiras, esse número vai para apenas uma: Caracas, na Venezuela, que teve voos retomados recentemente. Expandindo o mapa para o Grupo Lufthansa, apenas outras nove cidades latino-americanas são atendidas hoje, todas onde a Iberia já tem forte presença, e a maioria é composta somente por destinos sazonais da Edelweiss Air, subsidiária da Swiss com foco no turista europeu que viaja para aproveitar o verão fora de áreas frias.

Desta maneira, a Iberia tem hoje sete cidades latino-americanas atendidas exclusivamente em relação a todo o Grupo Lufthansa, principalmente na América Central e na região andina. Outra vantagem é a parceria da IAG com a LATAM, que permite a distribuição ampla por todo o continente. A Lufthansa também tem parceria com a LATAM, porém é mais limitada ao Brasil.

Apesar do destaque ao fortalecimento dos voos na América Latina feito no anúncio oficial da compra da TAP, o Grupo Lufthansa ainda não anunciou nenhum plano concreto para a TAP e focará primeiro na integração da empresa ao grupo e na renovação de frota, incluindo a chegada do A350XWB, que no passado já foi parte dos planos oficiais de frota da companhia portuguesa:

Mateus Santana
Mateus Santana
Fascinado por aviões desde pequeno é piloto comercial de aeronaves na América do Norte

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